Educação e outras epistemologias: quando o projeto de vida é a filosofia do empreender

Giovanni Codeça da Silva

Mestrando no PPFEN/CEFET-RJ; professor na rede CEJA do estado do RJ (educação pública de jovens e adultos)

10/10/2025 • Coluna ANPOF

Sob o concreto quente das escolas pública das margens, sob o barulho simultâneo das motos, dos helicópteros e dos recreios apressados, nasce uma pergunta que não pode mais ser evitada: o que significa ensinar filosofia em tempos em que “projeto de vida” se tornou sinônimo de empreendedorismo? Quando o currículo escolar abraça com entusiasmo a lógica do mercado e transforma a existência em uma planilha de metas e competências, é urgente dizer: existem outras formas de viver, de pensar e de ser. “Educação e outras epistemologias” não pode ser apenas uma proposta alternativa, uma narrativa vazia, é preciso convertê-la em discurso-ético. É o grito dos territórios que ainda não se renderam à homogeneização neoliberal. E é nesse terreno de disputa, entre o que querem que sejamos e o que podemos nos tornar juntos, que a Filosofia encontra seu lugar de insubordinação.

O currículo neoliberal, que se espalha pelas escolas sob a forma de discursos motivacionais, jogos didáticos e formações pautadas na eficácia, não é inocente. Ele carrega um projeto de mundo. O jogo “Projeto de Vida”, da consultoria Eureka, distribuído às escolas e acompanhado de formações para professores, é exemplo claro de como o sistema disfarça doutrinação sob o manto da inovação pedagógica. Seus tabuleiros coloridos e suas cartas de objetivos ocultam uma ideologia perversa: a de que o aluno pobre precisa aprender a vencer sozinho, a sonhar dentro da caixa, a competir até que sobre apenas um. Nesse jogo, quem tem fome precisa apenas de foco, quem sofre violência precisa apenas de resiliência, e quem está excluído precisa apenas de metas SMART, ou como conhecemos mais claramente é a outra face harmonizada da meritocracia. A dor é psicologizada, a precariedade é romantizada, e a coletividade é substituída pela performance. O que se vende como “projeto de vida” é, na verdade, o projeto de um sistema que quer corpos dóceis, adaptáveis e produtivos. A Filosofia, se quiser continuar sendo Filosofia, precisa recusar esse jogo cruel, que usa a precariedade docente da carga horária para submeter seus valores.

Quando o ensino da Filosofia se dobra ao discurso do empreendedorismo de si, quando repete as fórmulas do coaching escolar e da inteligência emocional despolitizada, ele deixa de ser pensamento e se torna ferramenta de domesticação. A Filosofia se esvazia quando se transforma em conteúdo “facilitador” do projeto de vida neoliberal. A escola passa a ser laboratório de subjetividades moldadas para o fracasso e, ao mesmo tempo, culpabilizadas por ele. O aluno periférico, ao invés de ser convidado a pensar criticamente seu mundo, é incentivado a adaptar-se a ele, a transformá-lo em degrau. O “favela venceu” deixa de ser apenas slogan de rede social e torna-se diretriz pedagógica institucionalizada.

Mas há outros caminhos, e eles brotam nos interstícios. Pensadores como Milton Santos, Gramsci, Lukács e Nego Bispo nos convocam a reencantar o ensino como prática de liberdade. Eles nos chamam a contracolonizar a Filosofia e a educação. Não se trata apenas de incluir autores negros, indígenas, ou periféricos no currículo — embora isso seja necessário — mas de desestabilizar as bases da episteme que estrutura o próprio ato de ensinar. É preciso abandonar a ideia de que ensinar é transmitir verdades universais e reconhecer que o conhecimento nasce também do chão, da escuta, da experiência vivida e da memória coletiva.

O caminho que Milton Santos nos oferece para compreender como a escola é um território em disputa, se esgueira pelas vielas do saber. Ele mostra que o espaço não é neutro, mas construído por relações de poder. A escola periférica é, muitas vezes, cercada pela lógica da exclusão urbana: falta estrutura, falta segurança, falta alimento, mas sobra promessa de futuro descontextualizado. Ensinar Filosofia nesse contexto significa romper com o discurso de superação individual. Significa olhar para o território e perguntar: que saberes estão vivos aqui? Que resistências silenciosas florescem entre o abandono e a esperança? Que mundo é esse que espera que os jovens se adaptem à sua crueldade em vez de transformá-lo?

Mas a escola foi pensada como lugar de formação do senso comum, segundo Gramsci. E que o senso comum pode ser conservador, mas também pode ser o início de uma nova consciência crítica. Ao invés de usar a Filosofia para ensinar o aluno a se planejar, a se autogerenciar, a se precificar como produto, devemos usá-la para desnaturalizar essas exigências. Devemos perguntar: por que vivemos em um mundo onde a vida só vale se for rentável? Por que sonhar é sempre sinônimo de sair da favela/quebrada, e não de transformar a favela/quebrada em mundo? Por que chamam de escolha o que é, na verdade, imposição de sobrevivência?

Lukács, com sua ontologia do ser social, nos ajuda a entender que a subjetividade não é um projeto isolado. Ela é construída pelas relações sociais, pela estrutura econômica, pela história. Não é apenas escolha do aluno sonhar com um tênis caro ou com um emprego de sucesso. As condições de educação neoliberal sugerem, propõem, o conduzem a isso! A privatização do sonho. Ensinar Filosofia é, então, ensinar a historicizar o desejo. A colocar o desejo em perspectiva, a ver nele o reflexo de uma estrutura que precisa ser transformada. Quando a escola diz ao aluno que seu projeto de vida é se adaptar ao sistema, ela está negando o potencial revolucionário do pensamento. Quando ela transforma o professor em coach e o aluno em startup, ela assassina a educação como experiência coletiva de reinvenção do real.

E então qual viela? Qual ladeira subir? Na contramão, podemos eleger a sabedoria de Nego Bispo. Seu pensamento é insubmisso, plantado em terras que ainda se recusam a ser conquistadas. Ele nos oferece uma sabedoria viva, que não cabe em apostilas, nem em slides de formação (que enfrenta até mesmo ser rotulada como Filosofia). Uma sabedoria que nasce da relação com a terra, com o tempo espiralar e com os saberes do povo. Seu contracolonialismo é radical porque não busca disputar espaço dentro da lógica dominante, mas criar mundos fora dela. Ele não quer uma cadeira na universidade, um bimestre no currículo, ou um saiba mais no material didático. Quer derrubar o prédio e construir outro, de barro e de palavras vivas. Levar Nego Bispo, e outros como Lélia, Maria e Conceição, para a escola, é mais do que citá-los: é transformar o modo como pensamos o saber, o tempo, a autoridade e o projeto de vida. É reconhecer que há epistemologias vivas pulsando nas periferias, que resistem à captura neoliberal. Como uma rajada de versos dos Racionais, de Leci ou da Favela Vive!

Nesse contexto, o ensino da Filosofia precisa reaprender a ser perigoso. Precisa voltar a incomodar, a desestabilizar e a desconstruir. Precisa rasgar o jogo do “projeto de vida” e perguntar: e se a vida não for projeto e nem jogo? E se a vida for processo, afeto, cuidado e comunhão? E se empreender não for abrir uma empresa, mas resistir coletivamente ao esvaziamento do sentido? E se o papel da escola não for preparar para o mercado, mas preparar para o comum, para o poético e para o insubmisso?

Educar, então, não é treinar. Ensinar Filosofia, muito menos. É criar espaço para que os jovens e adultos possam imaginar futuros que não sejam apenas continuação do presente. É oferecer palavras para nomear as dores e  os sonhos. É construir coletivamente a recusa a esse sistema que transforma tudo em mercadoria — inclusive a existência. A urgência de contracolonizar a Filosofia é a urgência de salvar a vida do seu esvaziamento. A urgência de contracolonizar a educação é a urgência de impedir que ela se transforme em ferramenta de reprodução da miséria simbólica.

A escola pública periférica/favelada, tantas vezes tratada como lugar de carência, é também o lugar onde pulsa a possibilidade de uma outra educação. Onde a Filosofia pode reencontrar seu sentido originário: o amor ao saber, sim, mas também o amor à vida e a confluência. É nesse chão que podemos construir outra ideia de projeto de vida — uma que não se confunda com ascensão individual, mas com libertação coletiva. Uma que não caiba num jogo, mas transborde dele. Porque o verdadeiro projeto de vida é aquele que se constrói em comunidade, em diálogo, em resistência.

A Filosofia, se quiser sobreviver ao seu próprio esvaziamento, precisa reaprender a habitar as margens. Precisa se sujar de chão, de corpo, de contradição. Definitivamente abandonar a soberba de pensar em latim e verbalizar em alemão! E a escola, se quiser ser espaço de emancipação, precisa abandonar a fantasia de que todo jovem pode se tornar um vencedor, e, assim, passar a construir com ele o entendimento de que é possível, juntos, criar um mundo onde ninguém precise ser vencido para que outros vivam. Onde a vida seja mais que uma meta. Onde pensar seja o primeiro passo para libertar.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.