Filosofia brasileira e 'regionalismo filosófico': do Centro-Oeste, o caso de Mato Grosso do Sul

Weiny César Freitas Pinto

Professor do Curso de Filosofia e do Curso de Pós-graduação em Psicologia da UFMS

24/06/2025 • Coluna ANPOF

Com nítido atraso, nos últimos anos tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil o debate sobre “filosofia brasileira”. A própria “Coluna Anpof” deve ter o mérito reconhecido por reunir e veicular interpretações variadas desse debate. De fato, o tema conta com perspectivas diversas de análise, baseadas em relativa variedade de pontos de vista: o do resgate histórico da filosofia brasileira, o das influências da “missão francesa” – do qual decorre certo “uspcentrismo”, tópico, a meu ver, pouco explorado na análise do tema –, enfim, o da capacidade e especificidade criativa e criadora do “fazer filosófico” local.

 Eu gostaria de adicionar um elemento a esse debate: o tema do “regionalismo filosófico”. Meu objetivo é apenas chamar a atenção para um ponto de vista novo, sobre o qual eu mesmo não tenho ainda nada substancialmente teorizado, mas que julgo relevante para o aprofundamento e avanço da discussão. Proponho pensar esse tema mediante a apresentação de um caso: o caso de Mato Grosso do Sul, Região Centro-Oeste do Brasil.

Com a recente aprovação pela CAPES do curso de mestrado acadêmico em Filosofia, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a filosofia brasileira não apenas ganha mais um PPGFil (Programa de Pós-Graduação em Filosofia) – que naturalmente se junta ao conjunto de todos os outros no esforço de manter e fazer avançar a excelência científica da área –, mas também aprofunda e completa o quadro de oferta da pesquisa filosófica no Centro-Oeste brasileiro. Sem desconsiderar a existência, desde 2017, do Prof-Filo (Mestrado Profissional em Filosofia), na própria UFMS, existência, aliás, bastante produtiva e exitosa. Mato Grosso do Sul era, até o momento, o único estado da Região Centro-Oestre que não possuía um Programa de Pós-graduação “acadêmico” na área. Ganha a filosofia brasileira, ganha a filosofia no Centro-Oestre, ganha a filosofia em Mato Grosso do Sul.

O Programa possui área de concentração em “História da Filosofia” e conta com duas linhas de pesquisa: “Epistemologia e Filosofia da Ciência” e “Ética e Filosofia Política”. A área de concentração e suas respectivas linhas, ao mesmo tempo em que compartilham afinidades temáticas com outros PPGFil’s, especialmente do Centro-Oeste (UnB, UFG, UFMT), resguardam o traço distintivo da pesquisa a ser realizada na UFMS: pesquisa concentrada no clássico método da “História da Filosofia”, cujas linhas, no entanto, não prescindirão, em razão disso, de novos métodos de investigação filosófica; isto é, nossa prática de pesquisa se orientará pelo pressuposto segundo o qual é inteiramente possível – e desejável – produzir conhecimento filosófico com “a velha e boa” História, sem com isso negligenciar qualquer outra nova metodologia investigativa desenvolvida e aplicada no campo da filosofia. Tendo essa perspectiva em mente,  a consolidação da nossa identidade como Programa será também oportunidade de participar e contribuir para uma frutífera articulação interinstitucional de fortalecimento da pesquisa filosófica regional.

Com efeito, o PPGFil/UFMS já nasce articulado como “rede de pesquisa” regional, nacional e internacional. Participam do corpo docente do Programa, além dos professores locais, pesquisadores da UnB, UFT, UERJ e UFPR[1] (Centro-Oeste, Norte, Sudeste e Sul), e da UniCa (Università degli Studi di Cagliari, Itália). Um corpo docente amplo, diverso, que reúne investigadores de diferentes níveis de experiência acadêmica e maturidade científica, desde os que estão no início de suas atividades de pesquisa aos que contam já com relativo e elevado grau de prática e domínio da recherche filosófica. Esse quadro de diversidade regional e de experiência e maturidade científica variada é concebido por nós como outra excelente oportunidade de aprendizagem e de consolidação do nosso perfil e identidade como Programa.

Falo precisamente de “consolidar”, e não de “constituir” nossa identidade de pesquisa, porque, justamente, a proposta da qual surge o Programa é já a demonstração de um perfil solidamente constituído no âmbito institucional da UFMS. Nosso Programa é resultado da história de um curso de graduação em Filosofia – que neste ano, aliás, celebra 15 anos de existência, e que já formou mais de uma centena de profissionais licenciados na área –, a partir do qual, ao longo dos anos, várias inciativas institucionais de pesquisa filosófica surgiram e se desenvolveram: TCC’s, Grupos, Redes e Projetos de Pesquisa, PIBIC’s, eventos regionais, nacionais e internacionais, publicações científicas, inserção de docentes em outros Programas de Pós-graduação, criação de periódico científico próprio, Prof-Filo e outras. Tudo isso, sem nenhuma dúvida, graças, especialmente, à dedicação de cada um dos docentes, aqueles que passaram e os que compõem os quadros atuais do curso, a quem também dirigimos merecida homenagem.  Ou seja, na última década e meia, o curso de Filosofia da UFMS amadureceu institucionalmente e avançou de forma significativa na produção de pesquisa filosófica. A aprovação e criação do nosso PPGFil é somente um dos resultados desse amplo processo. Aí repousa, precisamente, a origem e constituição da nossa identidade de pesquisa, que agora terá  a chance de consolidar-se ainda mais por meio da existência do Programa.

Como se vê, nossa proposta é a de um Programa aberto, comprometido com a produção e desenvolvimento, na UFMS, de pesquisa filosófica inclusiva, de excelência e de alto impacto científico e social, sensível ao diálogo institucional com os variados setores da sociedade sul-mato-grossense, atento a problemas e potencialidades locais para os quais, a seu modo, o conhecimento filosófico pode contribuir. Naturalmente, o público-alvo imediato do Programa são os egressos do nosso curso de graduação, aos quais se juntam egressos de outros cursos de Filosofia, do estado e de fora dele, mas também consideramos e enfatizamos a natureza transdisciplinar do pensamento e da pesquisa filosófica, no sentido de visar não apenas a “filósofos de formação”, mas igualmente ao público da grande área das “Humanidades” e a profissionais das mais diversas áreas de atuação e setores da sociedade.

Nesse sentido,  é significativo notar que a aprovação do PPGFil/UFMS se dá em um contexto institucional local bastante promissor para a pesquisa em Filosofia. Além de ser o primeiro mestrado “acadêmico” da área em Mato Grosso do Sul (juntando-se à pesquisa filosófica já levada adiante há quase uma década pelo Prof-Filo), sua criação reforça e converge para o movimento de construção de uma ampla agenda estadual das “Humanidades”, iniciada em 2023 com a criação do FEFICH-MS (Fórum Estadual de Filosofia e das Ciências Humanas de Mato Grosso do Sul). Mais informações, clique aqui! O Fórum acaba de mediar junto à Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc-MS) e à Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia (Fundect-MS), a conquista de um Edital, já em fase de contratação, que financiará 3,2 milhões de reais, voltados exclusivamente a projetos de pesquisa da grande área das “Humanidades”. Bons ventos da pesquisa filosófica e das ciências humanas sopram de Mato Grosso do Sul para o Centro-Oeste e para o Brasil.

Com efeito, Mato Grosso do Sul, este pequeno estado da nossa Federação, com menos de três milhões de habitantes, mais conhecido por sua economia do agronegócio, pelo Pantanal, e por suas exuberantes belezas naturais – expressas emblematicamente pela cidade de Bonito e adjacências –, é pouco reconhecido pela enorme potencialidade científica e universitária que possui. Há no estado duas Universidades Federais (UFMS e UFGD), uma Universidade Estadual (UEMS) e um Instituto Federal (IFMS) amplamente capilarizados em todo o território estadual, e há ainda, duas grandes Universidades privadas (UCDB e Uniderp-Anhaguera), além de vários Centros Universitários e Faculdades. Dados do CGEE (2024), apontam que de 1996 a 2021, Mato Grosso do Sul atingiu a marca da concessão de 9,1 títulos de doutores por 100 mil habitantes, segundo maior índice do Centro-Oeste, atrás apenas do Distrito Federal. A média de Mato Grosso do Sul é maior que a média do Centro-Oeste, que possui a marca de 8,7 doutores/100 mil habitantes, o que coloca a Região no meio da tabela nacional, à frente de Norte e Nordeste (3,9 e 6,0, respectivamente) e atrás de Sul e Sudeste (15,1 e 12,9, respectivamente). Para um estado jovem, que acaba de completar 47 anos de existência, a situação e a perspectiva concernentes à atividade universitária e de pesquisa são notáveis. MS já é uma fatia relevante da produção nacional de pesquisa científica, e, nesse contexto, a pesquisa em filosofia e na área de “Humanidades” seguramente tem um papel a cumprir e muito a contribuir.

Experiências deste tipo, “locais/regionais”, têm muito a dizer sobre a filosofia brasileira. Com certeza, o Centro-Oeste e Mato Grosso do Sul não são casos isolados em relação a tantos outros casos locais e regionais, com suas características, avanços e desafios específicos, os quais igualmente deveríamos conhecer melhor. Quem sabe esta coluna não estimule colegas de outras localidades e regionalidades a nos apresentarem os seus casos! Da minha parte, estou convencido de que qualquer tentativa de compreensão sobre o que vem a ser a filosofia brasileira não pode mais ignorar o que, embora ainda não tematizado por nós, já se impõe a ser designado conceitualmente como “regionalismo filosófico”. Sem dúvida, um tema filosoficamente difícil, cujo desafio está lançado e aponta para um longo trabalho pela frente...*


Referência

CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS - CGEE. Brasil: Mestres e Doutores 2024. Tabelas de dados. Brasília, DF. Disponível em: https://mestresdoutores2024.cgee.org.br/dados


Notas

[1] Fazemos nossa homenagem ao Prof. Vinícius Berlendis de Figueiredo (1965-2005), colega do Departamento de Filosofia da UFPR, que generosamente se entusiasmou e se juntou a nós, em nossa proposta de APCN. Uma enorme perda para toda a nossa comunidade filosófica nacional.

* Talvez, uma maneira fecunda de começar esse trabalho seja olhar para a experiência de disciplinas que já o realizaram exitosamente, como são os casos notórios da História e da Literatura. Em ambas, o tema do “regionalismo” já está amplamente debatido e consolidado.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

DO MESMO AUTOR

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Weiny César Freitas Pinto

Professor do Curso de Filosofia e do Curso de Pós-graduação em Psicologia da UFMS

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