Filosofia não deve ser ensinada como ciência - Notas kantianas de Jean Maügué

Emily Argolo

Mestranda em Filosofia no PROF-FILO/Núcleo UFRB

07/07/2025 • Coluna ANPOF

Há noventa anos desembarcava do Mendonza, em companhia de Levi-Strauss e na segunda leva das missões francesas, aquele que inauguraria o ensino universitário de Filosofia no país: o jovem professor secundarista Jean Maugüé. Antes dele, Etienne Borne havia ministrado alguns cursos na recém criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras que deu origem à Universidade de São Paulo. Maugüé, no entanto, reorientou a proposta curricular elaborada por Borne e definiu algumas diretrizes para o ensino a partir de 1935 que ainda repercutem na formação acadêmica brasileira. O professor Paulo Eduardo Arantes, em seu livro Um Departamento Francês de Ultramar, consagrou este documento como a Certidão de Nascimento da formação filosófica nacional. A proposta de Maugüé foi publicada quase duas décadas depois pela Revista Kriterion em 1954, sob o título: O ensino de filosofia e suas diretrizes.

Em pelo menos dois aspectos Maugüé foi determinante para o nascimento de uma comunidade filosófica profissional no Brasil no século XX. O primeiro diz respeito a sua personalidade e excelência didática. Embora jamais tenha se tornado um acadêmico em sentido estrito, Maugüé foi o responsável pela criação de uma atmosfera acadêmica que tornou propícia, mais adiante, a incorporação do espírito exegético, traço deontológico da nossa identidade universitária[1]. Todavia, nos ocuparemos de abordar apenas o segundo aspecto deste legado: suas ideias sobre ensinar filosofia no Brasil. Pretendemos aqui recapitular algumas notas de sua pedagogia kantiana, especialmente no que concerne à distinção entre ensinar Ciência e ensinar Filosofia, que nos parecem ainda atualíssimas e capazes de nos orientar mesmo após nove décadas de expansão e transformações em nossa comunidade nacional.

No artigo O ensino de filosofia e suas diretrizes, Jean Maugüé reafirma a fórmula de Kant: “a Filosofia não se ensina. Ensina-se a filosofar.” (Maugüé, 1954, p.225). O foco do ensino de Filosofia não deve ser apenas passar adiante as teses até então desenvolvidas, mas, além disso, formar o pensamento filosófico. Desse modo, o professor tem um papel central, visto que a Filosofia está indissociavelmente ligada à personalidade daquele que ensina.

Em Filosofia, as inclinações filosóficas do professor, a forma como ele próprio concebe o pensamento dos filósofos e a sua reflexão sobre aquilo que ensina, influenciará diretamente a forma como o seu estudante aprenderá a filosofar. Para Maugüé, é como se o professor fosse o modelo do exercício da reflexão filosófica (1954, p.225). Não um modelo para ser simplesmente seguido, mas uma referência a ser emulada e, eventualmente, superada pelo progresso intelectual do estudante.

Ao diferenciar o ensino da Filosofia do ensino das ciências, Maugüé enfatiza a objetividade das ciências, visto que, quanto mais específico um conhecimento é, mais possível de ser concreto e observável se torna. Todavia, essas ciências, apesar de suas especializações, estão ligadas a uma “verdade total” que transcende a compreensão individual. A reflexão de Maugüé sugere que, embora a realidade se manifeste de maneiras diversas, tudo o que existe é uma única coisa. Se essa unidade subjacente à realidade fosse possível de ser alcançada, ao englobar a totalidade das coisas, seria mais verdadeira do que as verdades particulares das ciências.

A objetividade das ciências a torna independente daquele que o ensina e da sua metodologia. Já a Filosofia busca a totalidade das coisas, e essa investigação propriamente filosófica torna-se subjetiva pois, devido à própria natureza humana “não podemos conhecer senão verdades dispersas” (Maugüé, 1954, p.225-226), desse modo, as verdades de caráter universal não podem se concretizar em conhecimento tangível e objetivo, pois estão além das limitações da capacidade humana de conhecer.

Ao dizer que conhecemos verdades dispersas, Maugüé evidencia as suas raízes na filosofia kantiana. Kant já havia descrito na CRP tanto as limitações para o conhecimento empírico (tempo e espaço), quanto às categorias (conceitos) e princípios (juízos) que compõem o intelecto. Para o filósofo, o que se percebe da realidade - que é “coisa em si”, o númeno -  se limita ao fenômeno, evidenciando a distinção entre a natureza da realidade e o modo como ela é concebida pela espécie humana. Assim, Kant conclui que não conhecemos a realidade em si mesma, apenas o modo como a concebemos (Kant, 2001, A42). Parece que aí está a limitação para o conhecimento da totalidade das coisas de modo semelhante ao proposto por Maugüé.

Considerando a limitação da capacidade humana de conhecer, fragmenta-se a realidade para entendê-la de forma mais objetiva. Mas a partir daí surge o esforço para encontrar a síntese, a unidade das proposições particulares. A Filosofia tenta integrar o conhecimento fragmentado das ciências  - que são reduzidas ao fenômeno - e buscar a verdade total - mais próxima possível da coisa em si - o que está além da capacidade de qualquer ciência individual. Assim, a principal diferença entre Filosofia e Ciência é uma questão de extensão do objeto de estudo - na ciência é particular, na Filosofia se busca o universal - por mais que certas investigações filosóficas desemboquem em teorias científicas, a Filosofia não se restringe à Ciência.

Posto isso, a tentativa da Filosofia de conhecer a realidade em sua totalidade deve acontecer em paralelo às descobertas das ciências, como evidencia Maugüé (1954, p. 226) ao dizer que as investigações das ciências objetivas e a tentativa filosófica de encontrar sua origem comum devem acontecer de modo sincrônico.

Maugüé segue sua reflexão abordando o que considera como a humildade e o orgulho da Filosofia (1954, p.227). A sua humildade consiste na sua dependência dos encaminhamentos das ciências. A Filosofia não pode preceder aquilo sobre o que pensa, de modo que é necessário que já se tenha estabelecido algum tipo de conhecimento para que surja a reflexão filosófica.

Trata-se de uma relação de causalidade: primeiro há de ter surgido alguma especulação sobre a realidade, para depois haver a Filosofia que reflete sobre as questões investigadas e sobre o que ainda não foi descoberto. Os desdobramentos da reflexão filosófica, por sua vez, influenciam a forma como as ciências se estruturam e seguem adiante. Como um ciclo. É uma atividade secundária em ordem, mas superior em finalidade.

Todavia, a Filosofia também é orgulhosa, pois lida com questões fundamentais, sendo a atividade mais abstrata e, possivelmente, a mais próxima da verdade total. Ela não é útil no sentido prático, mas isso é um custo pela profundidade do pensamento filosófico.

Posto isso, para que a Filosofia possa ser ensinada, é necessário que já se tenha experiência intelectual concreta. Visto que exige um trabalho prévio da inteligência sobre o mundo para que possa, depois, voltar-se sobre esse próprio trabalho. Maugüé evidencia que filosofar exige bagagem cultural e intelectual (1954, p.229). De modo que o ensino de Filosofia não deve vir antes de uma formação sólida em outras áreas, pois se não há repertório, não há sobre o que se debruçar. A efetividade do ensino filosófico depende da qualidade da educação anterior, pois é necessário que haja familiaridade com outras ideias para que se consiga construir e acompanhar um raciocínio filosófico.

Há, ainda, a necessidade do estudo dos grandes filósofos, para então refletir por conta própria sobre a realidade em uma perspectiva contemporânea. Sem considerar a história da filosofia como um norte para as novas reflexões, corre-se o risco de torná-la superficial e de se aceitar qualquer novidade como se fosse válida.

Maugüé cita o perigo dessa adoção acrítica de certas correntes modernas, como o behaviorismo, o gestaltismo e o freudismo, por exemplo. Essas teorias têm valor, mas são particulares e imediatistas. Portanto, o professor de Filosofia deve considerar essas novas ideias, mas evitando a rápida aceitação e estimulando nos alunos o pensamento crítico e o senso das ideias gerais característico da Filosofia (Maugüé, 1954, p.232).

Assim sendo, o ensino de Filosofia requer o estudo da história da Filosofia, todavia, não deve se prender a uma lista de nomes e datas, mas sim na leitura e compreensão dos filósofos, pois “a história da filosofia consiste na retomada de contato, na comunhão com os grandes espíritos do passado.” (Maugüé, 1954, p.230). Assim, é indispensável que o estudante tenha contado com os textos filosóficos. Cabe ao professor de Filosofia ajudar seus alunos a compreender os filósofos, trazendo suas ideias para refletir sobre o tempo atual.

Em suma, o ensino de Filosofia, segundo Maugüé, não se trata de uma simples transmissão de conteúdos, mas de um exercício constante de reflexão. É uma atividade que exige a capacidade de, a partir do contato com os clássicos, refletir de modo autônomo sobre os dilemas do presente. O professor é, portanto, alguém que, ao praticar o exercício filosófico, serve como exemplo. Ademais, a Filosofia não pode ser antecipada a outras áreas do conhecimento, pois ela depende de um repertório prévio para que a reflexão ganhe sentido. O que impacta no próprio ensino de Filosofia, que exige a leitura dos filósofos e uma formação cultural ampla, capaz de fornecer ao estudante as referências necessárias para compreender e questionar a realidade.


Referências

ANDRADE, Ricardo Henrique Resende de. (2021). Jean Maugüé: o discreto charme do precursor da filosofia universitária brasileira. Entheoria: Cadernos De Letras E Humanas4(1), 13–36..

ARANTES, Paulo Eduardo. Um departamento francês de ultramar: estudos sobre a formação da cultura uspiana (uma experiência nos anos 60). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

CORDEIRO, Denílson Soares. A formação do discernimento: Jean Maugüé e a gênese de uma experiência filosófica no Brasil. Tese de doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2008.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. 5ºed. Tradução de Manuela Pinto Dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

MAUGÜÉ, Jean. O ensino de Filosofia e suas Diretrizes. Kriterion, Belo Horizonte, n. 29/30, p. 224-234, jul./dez. 1954.

POPPER, Karl. A lógica da investigação científica. São Paulo: Abril Cultural, 1980.


Nota

[1] O professor e historiador do Ensino da Filosofia no Brasil, Ricardo Henrique R. de Andrade desenvolveu o tema em seu artigo: “Jean Maugüé: o discreto charme do precursor da filosofia universitária brasileira” (2021).


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