HEIDEGGER PROFESSOR DE HANS JONAS: NO DIA DOS PROFESSORES/AS, UMA LIÇÃO DE FILOSOFIA

Jelson Oliveira

Professor do Programa de Pos-Graduação em Filosofia da PUCPR

15/10/2019 • Coluna ANPOF

As aulas, nessa época, eram de dois tipos: as chamadas “aulas magistrais” eram aulas expositivas, nas quais o professor falava e os alunos anotavam, quase sem nenhum debate; e os seminários, nos quais se requeria participação ativa dos estudantes. Jonas descreve essa experiência com palavras emocionadas: “Heidegger, cujas aulas magistrais eu não compreendia praticamente nada, era muito claro nos seminários e conseguia fazer com que os alunos se envolvessem. Fazia com que os estudantes lessem uma frase do texto e então perguntava: ‘Como você entende isso?’, ‘O que diz aqui Aristóteles?’, ‘O que significa esta palavra que utiliza’. Ele era magnífico e inclusive eu o compreendia.”

Jonas descreve uma metodologia cativante e complementar, para reconhecer em Heidegger um verdadeiro mestre, um professor entusiasmado e preocupado com os seus estudantes. Não se tratava apenas alguém que transmitia informações, mas que completava a sua tarefa com aulas mais interrogantes e dialogais. Jonas relata a capacidade de encantamento provocada por Heidegger nas chamadas “aulas magistrais”: ele lia os textos no original em latim e falava de forma tão excitante, que seus estudantes sabiam que estavam diante de um acontecimento especial. Jonas confessa: “eu me lembro que não entendi nada de sua exposição, mas eu tinha a estimulante sensação de que ali se falava sobre o Todo e que a questão era enfrentada de maneira substancial”. E o mais firme e emocionante - algo que eu mesmo tive o privilégio de sentir em muitos momentos de minha vida como estudante de filosofia e que desejaria que todo estudante ainda tivesse o prazer de experimentar: “Tudo aquilo superava a minha capacidade de compreensão, mas alguma coisa atravessava a minha alma, isto é, o convencimento de que eu estava diante de uma filosofia em devir: meu ouvido era fiador daquelas preocupações filosóficas, enquanto minha consciência testemunhava os resultados daquela filosofia”.

Com essas palavras Jonas atesta aquilo que viria a explicar porque Heidegger reuniu mentes tão brilhantes ao seu redor: sua filosofia e seu modo de comunicá-la estavam cercadas do mistério próprio das grandes filosofias. Nisso, diz ele, “a profundidade do pensamento de Heidegger era extremamente fecunda, não era possível guardar nenhum só instante a suspeita de que aquilo era mero teatro”. E o aluno acrescenta: “no geral, eu me sentia como diante de um grande mistério, mas com o convencimento de que valia a pena converter-se em um iniciado”. Todos os estudantes sentiam-se fascinados por isso porque todos sabiam o que estava em jogo e que isso era “algo muito importante”, embora não compreendessem bem ainda o que significava.

Jonas lembra que, mesmo antes da publicação de Ser e Tempo, Heidegger já tinha conseguido bastante fama entre os estudantes iniciantes, que saiam de suas aulas comentando: “Aqui se aprende filosofia”. A frase resume a grandiosidade da experiência que pode acontecer todos os dias, entre professores e estudantes de filosofia que se deixam atravessar pelo mistério que percorre e a força que vigora nos textos filosóficos. Mas a constatação também celebra a grandiosidade do ato de ensinar filosofia nesses dois modos: com a retórica que emociona, cativa e arrebata; e com a provocação e o diálogo que elucida, ensina e envolve.

Assim, o que Heidegger ensinava não era apenas uma ideia ou um conceito. A principal lição de sua filosofia parece ter sido mesmo a única que caberia a um filósofo do seu porte: instigar os seus estudantes a tal ponto que eles se voltassem contra ele mesmo. Talvez isso explique porque, entre esses alunos, quase todos quiseram superar o mestre. Estavam todos aprendendo a mesma lição. Talvez por isso, mais tarde, o próprio Jonas criticará a atitude de bajulação adotada por muitos estudantes, que ao invés de discípulos tornavam-se devotos.

Quando a filosofia está tão atacada e desvalorizada e quando muitos de nós detectamos desânimo e descrença em relação ao futuro por parte de nossos estudantes, que possamos celebrar sempre de novo esse encontro com o fascínio que desperta em nós o ser adormecido, ao tempo em que nos abre para a experiência da docência como atividade de provocação, como chamado e convocação em relação ao que é o mais importante e o mais fundamental de tudo. Heidegger, foi filósofo em sentido pleno porque foi, sobretudo, um professor completo. O que Jonas testemunha seja luz para nossa atividade docente também hoje, também aqui.

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