Jornada de trabalho também é pauta ambiental

Alice Medrado

Professora do Departamento de Filosofia da UNIMONTES

20/11/2025 • Coluna ANPOF

Assim como o senso comum, a filosofia tem abordado a crise ambiental como um problema moral. Discute-se a adoção de um modo de vida frugal, a redução do consumo, a resignação e a esperança. Num plano mais amplo e ainda com pouco avanço, discutem-se diferentes critérios para a atribuição de responsabilidade: países que mais se beneficiaram da revolução industrial são mais imputáveis? Países que mais poluem hoje devem pagar a conta?

Enquanto isso, a crise ambiental escala a um ritmo vertiginosamente superior ao entendimento coletivo sobre o assunto. Pode-se supor que o parco avanço nesse campo se deve, em parte, ao fato de que a crise tem sido abordada, no mais das vezes, em termos morais, quando deveria ser encarada como um problema político. Ou, dito mais abertamente: há um tipo de elaboração moral sobre o assunto que apenas contribui para a manutenção do status quo, atrasando o enfrentamento político que é exigido por um desafio dessa magnitude. Dito de forma ainda mais direta: para além de carros elétricos e brechós, a preocupação com o meio ambiente deveria nos levar a discutir reforma agrária, redução da jornada de trabalho, e taxação das grandes fortunas.

Já a abordagem moral se baseia, por vezes, na obra de pensadores como Hans Jonas, cujo O Princípio da Responsabilidade (publicado em 1979) ajudou a criar um senso comum sobre responsabilidade ecológica. Com sua teoria do “medo metodológico”, Jonas argumenta que é preciso imaginar os efeitos vindouros da catástrofe ambiental e assumir responsabilidade por meio de práticas de prevenção. Ele concebe o medo como um estímulo ético que se desdobra em uma “pedagogia da catástrofe”: é necessário antecipar o possível como provável, para fins de mobilização. O medo, nesse contexto, é o motor da responsabilidade. As adequações sugeridas por Jonas incluem, em geral, um modo de vida frugal, sacrificando o consumo perdulário em favor da preservação da vida.

Ainda segundo o filósofo, seria necessário abandonar o ideal de progresso em prol de um compromisso austero com a redução da produção e do consumo. Por se desenvolver no campo da ética e sob um paradigma principialista, sua teoria confere pouca ênfase ao fato de que o progresso é uma meta intrínseca à lógica de acumulação capitalista.

Preservada a relevância histórica de Jonas, críticos do filósofo apontam a dificuldade de se pensar a mobilização a partir de um afeto pouco político, como o medo. Mas o maior problema talvez seja que sua filosofia se limita a uma abordagem moral da questão e, por consequência, circunscreve as soluções possíveis ao imperativo superegoico à redução do consumo individual. A verdade é que o impacto desse tipo de apelo à consciência dos cidadãos comuns beira o insignificante, já que há relativamente pouco que recaia de fato sob sua esfera de escolha e ação.

Para se ter uma ideia da desproporção, pode-se considerar a forma de quantificar impacto proposta pelo Programa Ambiental da ONU (UNEP), que consiste em estabelecer uma cota anual de emissão de gases de efeito estufa per capita, de modo a frear o aquecimento global. Uma nota publicada pela OXFAM no início de 2025 mostra que o 1% mais rico extrapolou sua cota nos 10 primeiros dias do ano, enquanto a metade mais pobre da população levará três anos para emitir o mesmo montante de poluentes. A mesma organização já havia publicado um relatório com dados do Stockholm Environment Institute, em 2023, mostrando que o 1% mais rico (cerca de 77 milhões de pessoas) emite a mesma quantidade de CO2 que 5 bilhões de pessoas.

Para além do impacto exorbitante do modo de vida dos super-ricos, esta classe concentra, também, o poder de influência e mando sobre os processos de produção e distribuição de mercadorias e, assim, tem a palavra final sobre obsolescência programada, destruição de excedente, investimento em tecnologias limpas, entre outros aspectos decisivos. Essa classe concentra o poder de pressionar fortemente as instituições de legislação e fiscalização ambiental, viabilizando, por exemplo, o modelo predatório e altamente tóxico do agronegócio.

O entendimento de que a solução para os problemas ambientais virá de ajustes no consumo individual tende a manter as grandes questões convenientemente fora da discussão. Esse tipo de discurso, que prega a responsabilização individual do cidadão comum, tem funcionado como um obstáculo ao entendimento público, atrasando a implementação de soluções coletivas de mitigação e adequação.

Práticas e tecnologias de redução da emissão de poluentes, construção de infraestrutura adequada a suportar as mudanças climáticas em curso, incluindo obras de engenharia e deslocamento de populações atingidas, por exemplo, exigem planejamento e vontade política – frequentemente na contramão dos interesses dos super-ricos.

Vale lembrar, ainda, que a população menos responsável é também a mais afetada. Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas arrastam mais pessoas para uma situação de pobreza e vulnerabilidade. Uma abordagem que leve em consideração a configuração política da catástrofe, profundamente desigual e injusta, convida a pensar o problema para além da responsabilidade moral individual.

Faz sentido supor que o contexto das mudanças suscite outros sentimentos além do medo, como raiva, consternação, indignação e solidariedade. Por outro lado, as heurísticas do medo, desde Hobbes, não deram o devido crédito à capacidade humana de colaboração, já incorporada à ancestralidade remota da espécie. Uma relação “metódica” com a indignação pode ajudar a evitar explosões de revolta e o colapso civilizatório. Para combatê-los de modo democrático, é preciso que haja clareza sobre as reais causas e causadores da crise ambiental.

As pautas políticas mais urgentes, hoje, a nível mundial, são também, não por coincidência, pautas fundamentais à agenda ecológica, e é lamentável que raramente sejam reconhecidas como tais. Devem ser incluídas como pautas ambientais a reforma agrária, a redução da jornada de trabalho, o transporte coletivo gratuito, a demarcação de terras indígenas e a taxação de grandes fortunas.

No Brasil, a reforma agrária deve ser tratada como pauta prioritária – ela é a condição indispensável caso se queira evitar o colapso populacional das cidades, garantir soberania alimentar, reverter os danos da monocultura, reduzir o uso de agrotóxicos. Somente a predominância da agricultura familiar poderá oferecer a estrutura necessária a um modo de produção agroecológico.

A demarcação de terras indígenas é a única estratégia eficiente para a preservação da Amazônia. O mesmo pode ser dito de comunidades quilombolas e povos tradicionais, que acumulam conhecimento ancestral sobre a preservação dos diversos biomas brasileiros, como o cerrado.

A redução da jornada de trabalho, aliada à maior flexibilidade de home office, é ecologicamente vantajosa sob vários aspectos, para além da redução do trânsito. Mais tempo livre significa mais tempo para que as famílias possam planejar e preparar as próprias refeições, se envolverem em hortas domésticas ou hortas comunitárias. Essa seria a nossa única chance real de quebrar o ciclo de consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, com suas embalagens ultra poluentes, sua monstruosa pegada de carbono e seus inúmeros danos à saúde pública.

A garantia de transporte público coletivo gratuito é uma solução mais inteligente do que a política de carros elétricos individuais, que sequer são acessíveis, e menos ainda uma solução de baixo impacto ambiental real. Os movimentos de luta por tarifa zero em diversas cidades do país têm demonstrado a viabilidade da adoção imediata desse modelo, com redução da emissão de poluentes, inúmeros benefícios em termos de lazer e saúde, além de aquecimento econômico.

Todas essas pautas carregam um potencial de melhoria radical das condições de vida da maioria da população, e enorme benefício ecológico. Mais que sobreviver, é possível viver com abundância. O maior obstáculo são os interesses de uma minoria de super-ricos Tudo indica que a preservação da vida humana e da biodiversidade na Terra é incompatível com a existência de bilionários. A taxação de grandes fortunas é a medida mais moderada e democrática a ser adotada imediatamente.

Pode-se discutir um princípio de responsabilização mais próximo do terreno político do que moral: quem tem mais poder tem mais responsabilidade. O acúmulo de poder nas mãos de uma minoria abertamente descompromissada com o futuro do planeta é a epítome da catástrofe. A oposição popular a esse desequilíbrio é legítima e dispensa malabarismos metaéticos.

A filosofia pode ajudar a desmascarar a ideologia da responsabilização moral individual. No terreno moral, a maior catástrofe talvez seja mesmo o medo.


Referências

JONAS, H. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Trad. Marijane Lisboa, Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUCRio, 2006.

KHALFAN et al. Climate inequality: a planet for the 99%. OXFAM International, 2023. https://policy-practice.oxfam.org/resources/climate-equality-a-planet-for-the-99-621551/

MEDEIROS, J. L.; BARRETO, E. Lukács e Marx contra o “ecologismo acrítico”: por uma ética ambiental materialista. Economia e Sociedade, Campinas, v. 22, n. 2 (48), p. 317-333, ago. 2013.

OXFAM. 1% da população mais rica esgota seu limite de anual de emissões de carbono em apenas 10 dias. https://www.oxfam.org.br/1-da-populacao-mais-rica-esgota-seu-limite-anual-de-emissoes-de-carbono-em-apenas-10-dias/

Veloso, A. H. B. O ônibus, a cidade e a luta. Belo Horizonte: Impressões de Minas, 2017.

ZIONI, S. Tarifa Zero como instrumento de Planejamento Urbano e Ambiental. Conferência. https://youtu.be/BBI6Ia8SZ7w


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