O PROF-FILO e seu "arrojadíssimo" projeto de futuro: memória do VI Encontro Nacional
Eduardo Barra
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná (UFPR); Coordenador Geral do PROF-FILO
24/10/2025 • Coluna ANPOF
O VI Encontro Nacional do PROF-FILO (ENPROF-FILO), realizado entre os dias 25 e 29 de agosto de 2025, no Rio de Janeiro, sob a coordenação do núcleo da UNIRIO, marcou um momento crucial na trajetória do Mestrado Profissional em Filosofia – PROF-FILO. Este evento foi inequivocamente o maior e mais representativo encontro nacional do programa em todos os seus aspectos.
Em termos quantitativos, o VI ENPROF-FILO superou nossas melhores expectativas. Durante os cinco dias de evento, houve a apresentação de mais de 400 trabalhos de estudantes e egressos nas sessões de comunicações online, mediadas por cerca de 50 docentes [1]. A programação presencial, sediada pela UNIRIO (uma das mais recentes instituições associadas), reuniu cerca de 80 participantes, incluindo representantes discentes e docentes das 25 instituições públicas de ensino superior associadas ao programa.
A repercussão digital também foi notável: o canal do PROF-FILO no Youtube transmitiu toda a programação presencial e recebeu mais de 2,2 mil acessos durante a semana do encontro, enquanto o perfil no Instagram totalizou 74 mil acessos ao longo do mês de agosto [2].
Esta foi a sexta edição de uma série iniciada em 2018. As únicas interrupções anteriores ocorreram em 2020 (devido à pandemia de COVID-19) e em 2021. Curiosamente, a interrupção de 2021 teve uma razão negativa: foi causada pela expansão do número de instituições associadas, com a incorporação de nove novas IES ao programa, sendo a UNIRIO a primeira dentre elas a sediar um encontro nacional.
A expansão projetada: o doutorado no horizonte
.png)
As sessões presenciais do VI ENPROF-FILO contaram com docentes e discentes de 25 universidades públicas e institutos
federais e foram realizadas na Casa de Retiro Padre Anchieta, no Bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro-RJ.
O principal item de pauta deu ensejo ao consenso mais amplo alcançado entre os participantes presenciais do evento: a decisão de não realizar o sétimo encontro nacional em 2026, interrompendo assim, mais uma vez, a série histórica. O motivo para esta nova interrupção é igualmente positivo: a projeção de uma nova expansão do programa.
Desta vez, a expansão não será numérica (não haverá chamada para novas associadas), mas sim na oferta de um novo curso: o doutorado do PROF-FILO. Nos próximos meses, nossas energias estão voltadas à difícil tarefa de construção de uma proposta de doutorado.
As discussões sobre a proposta de doutorado foram o centro das sessões de trabalho presenciais. Contamos com as contribuições de representantes da CAPES Antônio Carlos Amorim (Diretor da Diretoria de Educação à Distância – DED) e Luis Reznik (Coordenador Adjunto da Área 51 – Ciências e Humanidades para a Educação Básica).
Antônio Amorim, ao apresentar as diretrizes do PROEB (Programa de Pós-Graduação stricto sensu para Qualificação de Professores), afirmou que, embora a prioridade da sua diretoria seja ampliar o número de mestrados, isso não "interdita a possibilidade de acatar propostas de expansão para o doutorado dos mestrados já implementados".
Luis Reznik detalhou os requisitos para o corpo docente na proposta de doutorado (APCN): cada instituição proponente deve possuir, no mínimo, dez docentes; corpo docente pode ter, no máximo, 30% de colaboradores; cada docente deve ter concluído, no mínimo, duas orientações de mestrado. A CAPES não exige que todas as 25 associadas que ofertam o mestrado ofereçam o doutorado simultaneamente. No entanto, a nossa expectativa é que todas as 25 instituições participem da proposta que será submetida no próximo edital da CAPES para propostas de cursos novos. [3]
O relatório que apresentamos à CAPES relativo ao quadriênio 2021-2024 demonstra que o PROF-FILO está muito próximo do que se considera um programa consolidado. Os indicadores de crescimento são robustos: atualmente, há cerca de 700 estudantes matriculados no programa; 500 estudantes já foram titulados pelo mestrado; e não há mais "diferenças marcantes" entre as instituições que ingressaram em 2017 e as que ingressaram em 2022.
Essa trajetória de sucesso – que permitiu ao programa alcançar a nota 4 em seu primeiro ciclo avaliativo (2017-2020) – não apenas autoriza, mas obriga o PROF-FILO a projetar "voos mais altos". O crescimento do programa decorre do êxito de seu projeto pedagógico e heurístico e impõe-nos fomentar a expansão da pesquisa e do conhecimento relativos ao ensino de filosofia, que é a própria razão de ser da pós-graduação.
Homenagens e programação cultural
.png)
Placa em homenagem a José Américo Motta Pessanha que, em breve, estará exposta ao público nas dependências do Centro
de Ciências Humanas e Sociais da UNIRIO (Arte de Letícia Neves)
A pauta do encontro não se limitou ao projeto de doutorado. O evento teve início com uma programação cultural em parceria com a Cinemateca do MAM-RJ, onde foi exibido o documentário Quando o Brasil era Moderno, que aborda os debates sobre a arquitetura brasileira nos anos 1930, culminando na visita à área externa do restaurado Palácio Gustavo Capanema [4].
A sessão de abertura foi dedicada a uma homenagem póstuma ao Professor José Americo Motta Pessanha. Pessanha foi um dos professores aposentados compulsoriamente pela UFRJ sob o AI-5 e foi, nos anos 1970, co-editor da coleção Os Pensadores, um marco no ensino da filosofia no Brasil [5]. O ato de homenagem contou com o apoio da ANPOF, SEAF, APROFIL-RJ, ABEFIL, PPFEN/CEFET-RJ e APROFFIB.
Pessanha recebeu a distinção de Professor Emérito do PROF-FILO, honraria anteriormente concedida a Maria Cristina Theobaldo (UFMT), Roberto de Barros Freire (UFMT), Celso Favaretto (USP) e Elisete Tomazetti (UFSM). A aula magna do programa foi proferida por Marly Bulcão e Marcelo de Carvalho, autores autores de Filosofia como Indisciplina –José Américo professor e filósofo (7 Letras, 2024).
Também foi homenageada a Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas (SEAF), através de suas fundadoras Leda Maria de Miranda, Dirce Eleonora Nigro Solis, Thereza Martins de Oliveira e Alino Lorezon, que compareceu presencialmente à sessão de abertura, juntamente com a atual presidente da Sociedade, Jacira de Assis Souza.
O debate curricular pós-BNCC
.png)
A sessão de abertura do VI ENPROF-FILO aconteceu no campus da URCA da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO
O encerramento do VI ENPROF-FILO ocorreu com a mesa-redonda “Reconstruindo caminhos: o lugar da Filosofia nos Currículos Nacionais após a revisão da BNCC”. O debate, que reuniu Edgar Lira (PUC-RJ), Ronai Rocha (UFSM) e Taís Pereira (CEFET-RJ), focou no cenário pós-BNCC, onde a filosofia foi realocada como um componente de "ciências humanas e sociais aplicadas," e seu conteúdo específico foi substituído por competências e habilidades, em grande parte alheias aos propósitos tradicionais da disciplina.
Na sua participação na mesa, Ronai Rocha: Defendeu que a filosofia deve manter sua autonomia, mas precisa ser sensível à interdisciplinaridade e transversalidade. Ele apontou a tensão entre objetivos emancipatórios (como na Resolução CNE/CEB n. 4, de 2025) e a visão tradicional da filosofia. Ronai ressaltou a indispensabilidade da filosofia para que os alunos lidem com temas complexos em um mundo desafiador e superficial.
Taís Pereira, por sua vez, argumentou pela necessidade de construir um currículo plural de forma coletiva, horizontalizada e engajada. Para ela, o currículo deve ser visto como um campo de disputa e construção, afirmando a relevância autônoma da filosofia enquanto está profundamente engajado na descolonização do saber e nas realidades plurais dos estudantes brasileiros.
Encerrando a rodada inicial, Edgar Lyra sustentou a indispensabilidade da filosofia frente às transformações tecnológicas e à BNCC. Ele questionou se as escolas, ao apenas tentar mitigar efeitos nocivos da tecnologia (efeito de uma preguiça intelectual), não estariam se furtando à tarefa de educar. Edgar espera que a filosofia ofereça a formação necessária para lidar com a complexidade desses temas, promovendo debate qualificado e produção transdisciplinar de conhecimentos em um mundo hiperconectado.
Um ambicioso futuro creditado por um ethos comunitário
A diversidade de perspectivas apresentadas nessa mesa de encerramento reflete o ambiente pluralista que predomina no PROF-FILO. Desde sua origem, o programa valorizou e fomentou a convivência entre as mais diversas perspectivas conceituais e institucionais. Este ambiente acolhedor, que permitiu somar esforços e jamais confundir diferenças com dissidências, é chave para as conquistas do programa.
Repito aqui o que eu disse pessoalmente à presidente da ANPOF, Janyne Satler (UFSC), em agradecimento e reconhecimento pela sua presença no nosso encontro: o PROF-FILO herdou o ethos da ANPOF, na medida em que se inspira no ideal de uma “comunidade filosófica brasileira”, compreendida como uma convivência de iguais pautada pela cooperação e pelo reconhecimento mútuo. Sem esse espírito comunitário, o PROF-FILO não teria sido possível, tampouco teria chegado aonde hoje chegou e muito menos teria pela frente o futuro que dele se espera.
Concluo esta memória transcrevendo uma passagem recolhida de um e-mail que há mais de uma década me foi enviado pelo nosso saudoso colega Vinícius de Figueiredo (UFPR), que lamentavelmente nos deixou no início deste ano. Vinícius era, então, o presidente da ANPOF e encomendara a mim, Marcelo Guimarães (UNIRIO) e Felipe Ceppas (UFRJ) uma programação paralela durante o XV Encontro Nacional de Filosofia, que se realizaria em Curitiba-PR, em 2012, voltada exclusivamente aos professores e professoras de filosofia da educação básica, o que passamos a chamar ANPOF-EM, atualmente ANPOF-EB, de cujas raízes floresceu o PROF-FILO. Ao receber o projeto que elaboramos, ele assim reagiu em 27/11/2011: “Confesso que me espantei, durante a leitura, com o que me pareceu certa ousadia e ambição, todas em sentido muito positivo, especialmente quando vi o orçamento. Arrojadíssimo! Mas fiquei realmente contente em imaginar que a direção da ANPOF pode ajudar a viabilizar esse tipo de iniciativa, ambiciosa, ousada, positiva, otimista. É assim que as coisas acontecem, afinal.” Que seja assim também que aconteça o doutorado do PROF-FILO: um projeto igualmente “arrojadíssimo” sustentado em uma iniciativa analogamente ambiciosa, ousada, positiva e otimista. [6]
Notas
[1] Todas essas comunicações estão disponíveis no canal do Youtube do programa: https://www.youtube.com/@prof-filo
[2] https://www.instagram.com/prof.filo_geral/
[3] Todos os documentos da área Ciências e Humanidades para a Educação Básica (Área 51) estão disponíveis em https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/avaliacao/sobre-a-avaliacao/areas-avaliacao/sobre-as-areas-de-avaliacao/colegio-de-ciencias-exatas-tecnologicas-e-multidisciplinar/multidisciplinar/cienncias-e-humanidades-para-a-educacao-basica
[4] O trailer oficial do filme está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=-D3UEQcNjfo
[5] Cf. “A página esquecida da cultura brasileira”, de Elio Gaspari, em https://www.observatoriodaimprensa.com.br/memoria/_ed751_a_pagina_esquecida_da_cultura_brasileira/)
[6] Agradecimentos à leitura e às contribuições de João Lima, Giovana Temple e Inara Zanuzzi à versão preliminar deste texto.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.