Quem com fogo fere com calor será queimado

Lucas Miguel Gonçalves Bugalski

Doutorando em Filosofia na PUCPR

28/10/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Hans Jonas da Anpof

"O fogo se transforma em todas as coisas e todas as
coisas se transformam em fogo, assim como se
trocam as mercadorias por ouro e
ouro por mercadorias
."
(Heráclito de Éfeso)

Fogo e catástrofe podem ser relacionadas para além da consumação física da tragédia, isto é, a associação óbvia de que o fim do mundo ocorrerá pela aniquilação completa por meio do fogo, da chama ou do calor. Do ponto de vista científico, a emergência climática é um fenômeno essencialmente causado pelo aumento da temperatura média do planeta, o que ocasionará mudanças nos fenômenos naturais que podem ser irreversíveis e causar inúmeras mortes. Os cientistas se debruçam a cada instante sobre essas possibilidades — tarefa que o filósofo alemão Hans Jonas, escolhido para a pequena reflexão exposta nesse artigo, chamaria de futurologia comparativa. Assim, muito já foi dito — embora nunca seja suficiente — sobre catástrofe, o fim do mundo na filosofia e sua relação com a ética da responsabilidade de Jonas, ou mesmo sua proposta diante da civilização tecnológica. Por isso, gostaria de apresentar um argumento jonasiano contra a catástrofe a partir da metáfora do fogo, em especial utilizá-la para imaginar o desafio ético e político gerado pela modernidade em razão do aumento desenfreado do poder tecnológico, como proposto pelo autor. Como Ailton Krenak aponta em A vida não é útil, o sonho e o imaginário possuem papel epistemológico e institucional na busca de um novo modo de sociabilidade; é preciso incendiar nosso pensamento com metáforas.

Na filosofia, o fogo como metáfora foi sempre presente. A primeira menção ao fogo como elemento da filosofia foi instaurada pelo filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, que identifica nele, como elemento também físico, a representação mais acabada do fundamento e funcionamento do cosmos — a arché. Para o filósofo, o fogo é gerador do processo cósmico, pois tudo, como um ciclo, sairá e voltará ao fogo, numa constante mudança. Nietzsche, em Filosofia na era trágica dos gregos, identifica duas funções no fogo heraclitiano: (a) fogo é elemento material que, metaforicamente, exemplifica o fluxo contínuo do devir cósmico; (b) e o fogo é a medida da própria mudança, isto é, o logos. Ainda para Nietzsche, a sabedoria do filósofo pré-socrático está, acima de tudo, em compreender o caráter cíclico do cosmos, da vida e da própria razão. O fogo, nesse sentido, antes de ser um elemento de consumação e destruição, é lido como fonte do equilíbrio, isto é “todo o devir nasce do conflito dos contrários; as qualidades definidas que nos parecem duradouras só exprimem a superioridade momentânea de um dos lutadores, mas não põem termo à guerra: a luta persiste pela eternidade afora.” (Nietzsche, 2008, §5, p. 45).

A chama eterna dos lutadores cósmicos, a medida de todas as coisas, eis o primeiro aspecto da metáfora do fogo que gostaria de destacar. A luta constante apresentada por Nietzsche é associada ao conceito de ekpyrosis de Heráclito. A teoria postula que o universo passa por um ciclo eterno no qual ele é periodicamente destruído e reabsorvido em seu princípio fundamental: o fogo. Contudo, essa conflagração é inerentemente regenerativa. O próprio fogo heraclitiano é uma unidade de opostos, uma harmonia em conflito que contém o potencial para a criação. Assim, a destruição do cosmos pelo fogo é a pré-condição necessária para o seu renascimento, garantindo um ciclo perpétuo de aniquilação e recriação. O fim do mundo pelo fogo não é fim, mas recomeço. Em sentido contemporâneo, a título de exemplo, o filósofo Peter Sloterdijk na obra Esferas I, ressignifica a ekpyrosis como uma metáfora para a crise da era moderna — que ele denomina petroceno, uma sociedade baseada no petróleo. Segundo sua análise, a civilização moderna é o resultado de uma imensa queimada; os humanos trouxeram as florestas primordiais de um passado longínquo, fossilizadas e liquefeitas de volta ao presente para queimá-las nas máquinas da revolução industrial. Sloterdijk descreve a humanidade moderna como um grupo de piromaníacos engajados no que ele chama de niilismo extrativista. Nesse sentido, o dom do fogo de Prometeu tornou-se um grande incêndio que consumiria o mundo.

Jonas em sua célebre obra O princípio responsabilidade, de 1979, ao utilizar a mesma figura do Prometeu, contribui para a segunda metáfora do fogo aqui analisada. A referência ao mito ocorre logo na primeira linha do prefácio de seu tratactus technologico-ethicus e introduz a justificativa para a escrita de sua obra: a ciência moderna, associada à técnica, modificou a natureza do agir humano produzindo um vácuo ético, sendo esta a razão da construção da ética da responsabilidade. Para Jonas, trata-se de um "Prometeu definitivamente desacorrentado, ao qual a ciência confere forças antes inimagináveis e a economia o impulso infatigável, clama por uma ética que, por meio de freios voluntários, impeça o poder dos homens de se transformar em uma desgraça para eles mesmos” (PR, p. 21). No mesmo sentido, na obra Técnica, medicina e ética, de 1985, Jonas demonstra que o progresso e o desenvolvimento estão encrustados na modernidade, sendo uma verdadeira conjugação entre Fausto e Mefisto. A referência à Prometeu e Fausto não é trivial e sim intencional, pois Jonas compreende a sua potencialidade metafórica.

Por trás do desejo fáustico, está o impulso “utópico” da ciência, que toma forma concreta nas conceções de desenvolvimento e progresso — científico, político, econômico, social etc. O impulso utópico intrínseco à ciência e à técnica moderna acaba, de uma vez por todas, com o tempo cíclico e com a metáfora do fogo como equilíbrio cósmico. Ao contrário, o fogo agora é aquele que destrói tudo para algo melhor e mais desenvolvido surgir no lugar. É o fogo das queimadas, que limpa a terra das inúteis plantas e árvores para liberar espaço ao crescimento do PIB por meio de pastos e cidades. Diferentemente de Sloterdijk, o humano não é simplesmente um piromaníaco, mas um cientista inebriado pelo sentimento diabólico-fáustico que tem a sua disposição um Prometeu definitivamente desacorrentado.

Conjugados esses dois elementos são responsáveis pela emergência climática e, sobretudo, por uma nova metáfora do fogo; antes criador e exemplo da renovação e do equilíbrio cósmico, agora símbolo da civilização que destrói o planeta com incêndios e queimadas. O caminho está, claro, na construção de uma ética, política e economia calcadas na responsabilidade perante o poder de destruição da tecnológica, causador da emergência do clima, mas também na criação (ou renovação) das nossas metáforas — não apenas sobre o fogo, mas de toda a natureza e vida. Diante do fogo da ambição fáustica, por essência imprevisível, Jonas defende a necessidade de limites. Ele afirma que há pontos em que se deve dizer até aqui e não mais lá. Em face do poder sem precedentes da tecnologia, Jonas apela para a responsabilidade e a prudência. Em suma, solução necessariamente passa pela justiça, pois todo o problema ético está relacionado com a pergunta sobre a boa vida[1].

Jonas compreende que a tarefa de impor limites não é fácil. Em uma entrevista presente na obra Dem bösen Ende näher, de 1993, intitulada, sem sacrifício não há esperança, o autor apresenta o argumento de que “a civilização tecnológica carrega consigo uma forte tendência a degenerar em algo excessivo e incontrolável” (Jonas, 1993, p. 81). Se não fizermos nada enquanto humanidade, seja politicamente ou economicamente, apenas as catástrofes podem ensinar a mudança necessária de vida.  A frugalidade e a responsabilidade devem animar nossas ações. Nosso apetite por consumo não deve mais aumentar constantemente como antes. Para Jonas, “teremos que ser um tanto modestos em nosso padrão de vida. Sem disposição para fazer sacrifícios, há pouca esperança” (Jonas, 1993, p. 82).

Nesse sentido, a luta contra o fogo catastrófico dos anseios diabólicos-fáusticos e prometeicos é permanente e sua realização deve sempre estar “fragmentada, como uma colcha de retalhos”. Isso significa, portanto, “que provavelmente teremos que viver à sombra da calamidade iminente por todo o tempo que virá”. Estar ciente da sombra causada pelo brilho do fogo prometeico desacorrentado, no entanto, “torna-se uma luz paradoxal de esperança”, a qual não silencia a voz da responsabilidade. Para Jonas, essa luz — que pode ser ocasionada pelo retorno à metáfora do fogo imanente de Heráclito, que estabelece harmonia e equilíbrio, ao contrário da aniquilação da combustão moderna — “não brilha como a da utopia, mas seu alerta ilumina nosso caminho” (Jonas, 1993, p. 100).

Contra a miséria do mundo incendiado pelo fogo das queimadas, a política irresponsável, a devastação ambiental, o consumismo, o capitalismo, a exploração da natureza e dos animais, se opõe a luz paradoxal do fogo como equilíbrio, a luta eterna entre vida e morte — ser e não ser —, que diante desse frágil equilíbrio precisa evitar a última contradição antes da catástrofe total: a escolha pelo não ser. A opção pelo fogo que destrói tudo ao seu redor, inclusive a si mesmo, e não o fogo da renovação constante e eterna da vida. Isto é, a aniquilação da própria possibilidade da contradição, efetivada na escolha definitiva pelo modo de vida moderno no qual existimos e, como resultado, a chegada do fim catastrófico no qual somos torrados definitivamente pelo calor do fogo prometeico — ou, sem sentido não metafórico, a irreversibilidade das consequências da emergência climática. 


Referências

Bornheim, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 2000.

Jonas, Hans. Dem bösen Ende näher. Gespräche über das Verhältnis des Menschen zur Natur. Suhrkamp, Frankfurter Verlagsanstalt, 1993.

Jonas, Hans. Técnica, medicina e ética. Sobre a prática do princípio responsabilidade. Trad. GT Hans Jonas da ANPOF. São Paulo: Paulus, 2013. (Col. Ethos)

Jonas, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio, 2006.

Krenak, Ailton. A vida não é útil. Companhia das Letras, São Paulo, 2019.

Mondolfo, Rodolfo. Evidence of Plato and Aristotle Relating to the Ekpysosis in Heraclitus. Phronesis, Vol. 3, No. 2, 1958.

Nietzsche, Friedrich. Filosofia na Era Trágica dos Gregos. Trad. Maria Inês Vieira de Andrade. Lisboa: Edições 70, 2008.

Souza, Grégori.; Oliveira, Jelson.; Bugalski, Lucas. Miguel.; Vasconcelos, Thiago. Frágil equilíbrio: justiça climática e responsabilidade. Caxias do Sul: EDUCS, 2025.

Sloterdijk, Peter. Bubbles: Spheres, Volume I: Microspherology. Semiotext(e), London, 2011.

Williams, Jeremy. Climate change is racist: race, privilege and the struggle for climate justice. Londres: Icon Books, 2021.


Nota

[1] Em livro recente, o conceito de justiça climática foi bem explorado. Cf. Souza; Oliveira; Bugalski; Vasconcelos, 2025.


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