Racionais MC´s e o ensino de filosofia

Thiago Oliveira

Professor Adjunto da Unirio e coordenador do curso de bacharelado em Filosofia-Unirio

10/03/2026 • Coluna ANPOF

O ensino de filosofia no Brasil deve estar comprometido com a realidade concreta brasileira, seus problemas existenciais, morais, ideológicos, políticos, econômicos e culturais, suas dinâmicas sociais e as contradições características da vida cotidiana dos brasileiros e das agruras que nos são típicas. Identificado como uma filosofia da práxis, este ensino deve se ocupar das necessidades habituais daqueles envolvidos no processo pedagógico. A sala de filosofia, em qualquer um dos seus níveis, não pode assumir o papel de estranhamento e ocultamento da realidade concreta.

A nossa cultura e a nossa história, riquíssimas em inúmeros detalhes, permitiram e ainda permitem a apropriação e a convergência de pensadoras e pensadores brasileiros capazes de atingir, mais rapidamente e profundamente, a centralidade dos nossos problemas. É o caso do grupo de Rap Racionais MC’s. Pedro Paulo Soares Pereira (Mano Brown), Paulo Eduardo Salvador (Ice Blue), Edivaldo Pereira Alves (Edi Rock) e Kleber Geraldo Lelis Simões (KL Jay) não necessitam do reconhecimento que aqui estou fazendo, pois são personalidades históricas do Brasil que dispensam a minha defesa. Dito isso, afirmo com tranquilidade: Racionais MC’s é um dos maiores grupos de pensadores que a realidade Brasileira foi capaz de produzir até hoje. Se não almejam a alcunha de filósofos, o que em nada diminuiria o trabalho e a importância do grupo, eles mesmos poderão dizer, mas eu me atrevo, com um pedido de desculpas já adiantado, a chamá-los de grandes pensadores brasileiros. Para provocar a bolha social e acadêmica que quero atingir neste exato momento, afirmo que podemos ensinar filosofia através do pensamento expresso no grupo de rap fundado em 1988 em São Paulo e que Racionais Mc’s são fundamentais para um ensino de Filosofia no Brasil.

Parte da motivação desse texto vem de uma pergunta que desenvolverei em outro momento: afinal, com quem nós, da filosofia, estamos dialogando? Algumas questões podem ser acrescentadas a fim de provocar quem está lendo a pensar comigo: a) quando ensinamos filosofia em sala de aula, seja no ensino fundamental, médio ou superior, com quem, afinal, estamos dialogando? Estamos dialogando, única e exclusivamente, com nosso campo e área de pesquisa, nossos pares acadêmicos? Estamos dialogando com o conteúdo histórico imposto por um parâmetro curricular e com um acervo histórico que nos foi ensinado mecanicamente no ensino superior? b) estamos dialogando com os problemas da nossa realidade concreta ou falamos sobre como outros/outras dialogavam com a realidade concreta à qual pertenciam?; c) pensamos o mundo que nos cerca ou explicamos um conteúdo histórico de filosofia determinado de maneira avessa e muitas vezes contrária aos nossos problemas e à nossa realidade?; d) quando pensamos ensino de filosofia, pensamos um aglomerado de saberes historicamente consagrados a serem reproduzidos em sala de aula a todo custo, ou adequamos esse conteúdo à realidade da sala, respeitando autores e autoras de maneira a torná-los vivos e orgânicos em qualquer nível de ensino?; e) fazemos filosofia juntamente com as/os autoras/autores, com os estudantes, com os textos e com a nossa realidade ou fazer filosofia significa apenas dizer o que esses autores/autoras pensaram?

O problema está em um ensino de filosofia fortemente centrado na exegese da “opinião alheia”. Em um ensino (pesquisa inclusa) voltado para a formação de técnicos da razão, de profissionais qualificados em dialogar com frases prontas e ideias estáticas e congeladas no tempo e no espaço. O problema está em uma “filosofia” de gabinete que teima em reduzir a prática filosófica a reprodução mecânica do acervo histórico. Este acervo pode e deve ser usado, mas jamais em detrimento dos nossos problemas cotidianos, jamais em oposição à realidade concreta dos brasileiros. A Filosofia tem um papel social específico! Qualquer semelhança com a famosa Tese 11 do Marx não é mera coincidência. A sala de aula de Filosofia deve se propor um compromisso político claro: interpretar para transformar, transformar interpretando. O pensamento expresso nas músicas dos Racionais faz justamente isso e pode ser utilizado como ferramenta para escaparmos da redução da Filosofia e seu ensino à mera reprodução ou repetição.

O papel da Filosofia deve ser o de comprometimento com o estado real de coisas e não com conceitos e abstrações apartados da vida cotidiana. Isto não é um rebaixamento da filosofia e de sua prática, mas sua elevação ao nível mais necessário: de interpretar e transformar, não apenas de criação ou interpretação de conceitos históricos.

O problema da prática filosófica de gabinete reproduzida em sala de aula e nas pesquisas acadêmicas está em ignorar o “humano histórico real” que se apresenta diante de nós. Quando entramos em uma sala de aula de filosofia estamos diante de humanos concretos, reais, com desejos, anseios e emoções dos mais variados, todos atravessados, de maneira condicionante, pela dinâmica de reprodução social à qual pertencem. É aí que entra a potência filosófica do pensamento presente na obra dos Racionais MC’s.

Utilizarei apenas um trecho da música “A vida é desafio” (composta por Edi Rock com participação de Afro-X no álbum “Nada como um dia após o outro”) que trata de uma realidade tipicamente brasileira: resistência, sonho e superação, elementos do nosso cotidiano. Já no início, a música denuncia as estruturas que pesam sobre os grupos sociais e suas relações:

Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo
Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol
Vai vendo!
Mas o sistema limita nossa vida de tal forma
E tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver
Os anos se passaram e eu fui me esquivando do círculo vicioso
Porém o capitalismo me obrigou a ser bem sucedido
Acredito que o sonho de todo pobre, é ser rico
Em busca do meu sonho de consumo
Procurei dar uma solução rápida e fácil pros meus problemas
O crime
Mas é um dinheiro amaldiçoado
Quanto mais eu ganhava, mais eu gastava
Logo fui cobrado pela lei da natureza
Vish, catorze anos de reclusão
O barato é louco, ó

Percebe-se a leitura poética e crítica de uma contradição imanente à nossa sociedade, que iguala as pessoas em sonhos, mas as separa socialmente através de marcadores de raça, gênero e classe. O sonho do jogador de futebol de sucesso como fuga do sofrimento e da pobreza, como fuga da miséria e do crime, elemento de escape para essa mesma miséria. O trecho faz um movimento de valorização da vida, mas, ao mesmo tempo, de denúncia das limitações impostas a grupos sociais específicos na sociedade capitalista. Isso fica mais nítido quando o sonho precisa ser interrompido, pois o sistema se impõe de tal maneira que a sobrevivência silencia o sonho.

É genial quando a música escancara a dinâmica de reprodução da sociedade capitalista e a necessidade da dominação ideológica: “Porém o capitalismo me obrigou a ser bem-sucedido...”. Em movimentos que só a arte consegue realizar, beleza e o horror se misturam em uma só frase. A beleza poética à serviço da crítica que denuncia os horrores de relações sociais devastadoras do sistema capitalista.

Racionais nos permite trabalhar inúmeras categorias e conceitos consagrados na Filosofia, criando um diálogo direto com nossa realidade concreta. Essa é a ideia central: que uma sala de aula de Filosofia deve estar identificada como uma filosofia da práxis, uma atividade filosófica vinculada às necessidades cotidianas de nossos estudantes. Categorias como “ato” e “potência”, “ser”, “essência” e “acidente” (para agradar os tradicionalistas), noções de “contradição” e sua aplicação em sociedade, “escolha” e “livre arbítrio”, “dinheiro” e “consumo”, todas se tornam vivas em sala de aula, bem como o vínculo entre o pensamento filosófico elaborado e a denúncia de estruturas sociais que reproduzem violências sistemáticas do Capitalismo. Uma sala de aula de Filosofia capaz de fazer uso dos Racionais é uma sala de aula viva, conectada com a realidade concreta e capaz de dialogar diretamente com as inúmeras camadas de nossa sociedade. A sala de aula de Filosofia não pode ser um museu de grandes novidades. A defesa aqui é de um ensino de Filosofia compromissado com o método materialista-histórico-dialético capaz de proporcionar uma análise das reais condições de existência e propor uma transformação radical. Se uma das principais funções do processo educativo típico do sistema burguês é a de produzir e reproduzir, entre os agentes partícipes do processo pedagógico, uma conformidade ou consenso no mais alto grau possível, e a música dos Racionais escancara muito bem isso, é papel do ensino de Filosofia aqui defendido o de criar, no mínimo, um processo de contra-internalização desse consenso.

A poesia na música dos Racionais, bem como em outros grupos de rap (poderia citar Facção Central, Sabotage, MC Sid, etc.), promove brilhantemente a denúncia dessa realidade. A potência pedagógica é ilimitada. O mesmo pode ser feito com outras/outros artistas da música e da poesia em geral, como é o caso de Bezerra da Silva e sua capacidade crítica que mistura leveza e profundidade. O ensino de Filosofia e a prática filosófica em sala de aula impulsionados pelo pensamento dos Racionais jamais se esquivará de encarar a nossa realidade de frente e propor, em cada aula, sua superação.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.