Radar Filosófico - A intersecção entre religiosidade e psique na obra de Carl Gustav Jung
Gustavo Henrique de Freitas Coelho
Doutorando em Filosofia na UFU
Leonardo Ferreira Almada
Professor de Filosofia da UFU
23/07/2026 • Coluna ANPOF
O que explica a presença recorrente de símbolos semelhantes em sonhos, mitos e tradições religiosas de povos separados por milhares de quilômetros e séculos de história? Por que figuras como o herói, o sábio, a grande mãe ou a luta entre o bem e o mal aparecem repetidamente em culturas que jamais tiveram contato entre si?
Essas questões ocupam lugar central na obra do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), um dos pensadores mais influentes do século XX no estudo da psique humana. Em artigo recentemente publicado na revista Ágora Filosófica, investigamos como Jung compreende a relação entre religiosidade e psique a partir de três conceitos fundamentais de sua Psicologia Analítica: símbolo, inconsciente coletivo e arquétipo.
Diferentemente de autores que interpretavam a religião como mera ilusão, superstição ou manifestação patológica, Jung entendia a experiência religiosa como uma dimensão constitutiva da existência humana. Para ele, a religiosidade não se reduz à adesão a uma doutrina específica, mas corresponde a uma experiência profunda do que chamou de “numinoso”: aquilo que se apresenta ao ser humano como misterioso, fascinante e transformador.
Essa compreensão está diretamente relacionada à sua teoria dos símbolos. Segundo Jung, símbolos não são simples convenções culturais nem invenções arbitrárias. Eles expressam conteúdos profundos da psique e funcionam como pontes entre a consciência e dimensões inconscientes da experiência humana.
A partir de seus estudos clínicos e de suas pesquisas sobre mitologias, religiões e tradições culturais de diferentes povos, Jung desenvolveu a hipótese do inconsciente coletivo, uma camada profunda da psique compartilhada por toda a humanidade. É nesse nível que se encontram os arquétipos, estruturas universais que influenciam a produção de imagens, narrativas e padrões simbólicos recorrentes em diferentes culturas.
Essa perspectiva permite compreender por que determinados símbolos religiosos aparecem repetidamente ao longo da história, sem que isso precise ser explicado apenas por transmissão cultural ou por coincidência. Para Jung, tais recorrências refletem estruturas universais da própria condição humana.
Nosso artigo também discute críticas frequentemente dirigidas ao pensamento junguiano. Seus conceitos de arquétipo e inconsciente coletivo são, muitas vezes, acusados de excessiva especulação ou de proximidade com o misticismo. Argumentamos, entretanto, que essas críticas nem sempre compreendem adequadamente o objetivo de Jung. Longe de rejeitar a ciência, ele procurou ampliar o horizonte da investigação psicológica, incorporando aspectos simbólicos, subjetivos e existenciais da experiência humana que dificilmente podem ser reduzidos a explicações estritamente materialistas.
Em um contexto marcado por debates cada vez mais intensos sobre religião, subjetividade e sentido da existência, a obra de Jung continua oferecendo instrumentos valiosos para refletirmos sobre as relações entre cultura, espiritualidade e vida psíquica.