Radar Filosófico - A morte e a morte de Quincas Berro d'água: uma crítica ao cânone filosófico
Pedro Bisneto
Doutorando em Filosofia na UFRN
17/06/2025 • Coluna ANPOF
Dentro dos estudos raciais, muito autores e teóricos veem na negritude o maior movimento político e estético do século XX. Essas definições partem, em sua maioria das vezes, do fato de que, enquanto um marco histórico, a Negritude se propõe a ser uma alternativa que supere uma limitação puramente “identitária”, promovendo um aprofundamento, em um primeiro plano, das questões políticas, ao tentar reformular os processos de formação da nossa condição de vulnerabilidade relacionada às questões raciais, seguido, em segundo plano, de uma realocação das questões metafísicas que, muitas vezes, encontra um encerramento do problema sem considerar um “novo” olhar sobre ele.
Por isso que desde seu surgimento, esse importante movimento direciona suas críticas às noções impossíveis de serem dissociadas das perspectivas filosóficas, tais como o Iluminismo, a Modernidade, a Democracia, já que se vê com estranheza a manutenção dessas ideias na relação Europa-colonialismo, além, obviamente, da própria História da Filosofia e seus diversos interlocutores, que enxergavam os homens e mulheres negros/africanos como inferiores e, por isso, encontravam justificativa para a colonização, o domínio e a escravidão. No entanto, ao observar bem a tradição envolvida nessas análises, percebe-se também a existência de uma linha mais crítica, a qual observa que o movimento teórico da negritude foi insuficiente para colocar em xeque as violentas contradições do cânone filosófico e suas inúmeras implicações.
É diante desse segundo movimento que decido me aproximar ao visualizar uma insuficiências nas leituras reformistas do cânone e suas respectivas compreensões de existência, de modo que, formalmente, os caminhos seguidos na tentativa de salvar a história da filosofia ocidental moderna, desembocam numa tentativa de aniquilação de corpos, teorias, ideais e sociedade. Por isso, minha pré-disposição deixa de ser reformista e passa a ser radical, de modo que não me interesso mais em consertar um suposto cânone, mas, ao invés disso, me proponho a acelerar sua morte, e esta, em definitivo.
Ainda que não tenhamos a total compreensão dos efeitos dessa vingança, em formato de assassinato, reconhecemos que sua execução é um rompante em direção a não aceitação da forma e do modelo adotados pela filosofia. Isso é importante porque essa mesma forma e esse mesmo modelo são responsáveis por forjar riscos iminentes de perseguição, que, em teoria, ameaçariam a pureza e a validade da filosofia, mas que, comicamente, na verdade, não passam de ilusões fajutas que autoproteção ao próprio cânone e aos seus privilégios.
Nesse movimento, o que proponho, nesse trabalho, é um aprofundamento nessas crítica ao cânone na mesma medida que afirmo sua morte. Faço isso mediante dois percursos objetivos: em um primeiro momento, demarco essa necessidade e urgência a partir de um relato pessoal, como uma experiência que guia o percurso que me leva à busca pela morte do cânone e como isso me afeta enquanto um corpo racializados. Num segundo momento, faço uma aproximação desse percurso com o texto literário, mais especificamente o curto romance, do escritor baiano Jorge Amado, A Morte e a morte de Quincas Berro d’Água, ilustrando os diferentes tipos de morte que o cânone filosófico ocidental pode incorporar para si como um mecanismo de autoproteção na mesma medida que dá continuidade ao extermínio do outro – extermínio ontoepistemológico, físico, político, estético, simbólico, jurídico.
É daqui que visualizo três possíveis falsas mortes do cânone: a morte da filosofia em Sócrates, a morte da filosofia pelo medievo e a morte da filosofia contemporânea. Esta última é nosso objeto de análise mais profundo, considerando que dela nascem os rompantes reformistas do cânone ou mesmo a busca pela representatividade em seus autores e nos pensadores presentes nos currículos formativos das graduações e pós-graduações.
O maior entrave de tudo isso, contudo, aparece e se fortalece em uma contradição: estaria esse cânone morrendo ou apenas fingindo sua morte, com um suposto revisionismo canônico que, simplesmente, efetua uma divisão entre o cânone e seus críticos?
É essa questão que guia o direcionamento do texto e me possibilita tensionar os limites do cânone e a urgência da sua morte e da necessidade do seu desaparecimento.