Radar Filosófico - Do (equivocado) uso do Estoicismo como autoajuda: Tentativas de compreensão e estratégias de enfrentamento

Gabriele Cornelli

Professor Associado da Universidade de Brasília; Coordenador da Cátedra UNESCO Archai

Aldo Dinucci

Professor de Filosofia da UFES

Vilmar Prata

Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

11/03/2026 • Coluna ANPOF

O estoicismo floresceu na Antiguidade em um contexto de crescente afastamento humano da natureza, quando leis e costumes passaram a ser percebidos como artificiais ou antinaturais. Seu lema, “Siga a Natureza”, só faz sentido para quem sente ter se distanciado dela. Nesse ponto, aproximamo-nos dos antigos: também nós, sobretudo no Ocidente contemporâneo, experimentamos sentimentos difusos de isolamento, desenraizamento e despertencimento.

Entretanto, é essencial reconhecer que o mundo antigo é, para nós, quase um universo paralelo. Um abismo temporal e cultural nos separa dele. Por mais que busquemos fidelidade ao estoicismo original, essa fidelidade é sempre limitada pela distância entre nossa cosmovisão e a dos antigos. Não podemos simplesmente “recuperar” o estoicismo tal como foi vivido por seus primeiros representantes, pois nossas categorias, preocupações e horizontes de sentido são distintos.

A pesquisa filosófica rigorosa dos textos antigos tem precisamente o objetivo de nos afastar das projeções que fazemos sobre eles. Ao estudá-los historicamente, filologicamente e conceitualmente, buscamos produzir estranhamento: o outro deve aparecer como outro, e não como uma versão antecipada de nós mesmos. O que nos interessa é o estoicismo em sua origem, em sua singularidade, para que o encontro com ele produza novidade e não mera repetição do que já pensamos.

Para isso, é indispensável a suspensão de juízo, sobretudo o moral. Os estoicos antigos não conheceram nosso mundo e não estavam preparados para responder — e muitas vezes sequer para formular — as questões que nos afligem hoje. Contudo, essa atitude crítica não surge espontaneamente: ela exige formação específica. Sem competências históricas, filosóficas e filológicas que permitam compreender os textos em seus contextos próprios, resta apenas a leitura enviesada do passado pelas lentes do presente.

Vivemos sob o horizonte do individualismo liberal, o que torna compreensível que muitos leitores interpretem textos antigos a partir desse viés. Seria surpreendente se não o fizessem. O problema surge quando, diante dessas leituras equivocadas, alguns pesquisadores adotam postura de escárnio e condenação moral. Ridicularizar o leitor comum, desprovido de formação metodológica adequada, é uma contradição. Se tais leituras decorrem de fatores estruturais da sociedade — como a hegemonia cultural de certas ideologias —, como responsabilizar exclusivamente indivíduos? Somos todos, em maior ou menor grau, atravessados por essas estruturas.

Além disso, o fenômeno não é exclusivo do estoicismo. O mesmo ocorre com o cristianismo, com a literatura, com a música e com outras manifestações culturais: frequentemente são adaptados para atender às demandas do mercado e do grande público, sob um viés ideológico dominante. Diante disso, muitos intelectuais acreditam estar presos a uma falsa dicotomia: ou se refugiam na “torre de marfim”, escrevendo apenas para seus pares, ou simplificam excessivamente seus textos para alcançar a massa.

Discordamos dessa oposição. Existe uma terceira via: a popularização científica de qualidade. No caso do estoicismo, o interesse contemporâneo pode ser uma oportunidade. Mesmo que inicialmente motivada por produtos culturais superficiais, essa curiosidade pode conduzir leitores às traduções e aos estudos acadêmicos sérios, convidando-os a um percurso intelectual mais profundo.

A filosofia e as artes de qualidade — populares ou eruditas — despertam interesse genuíno quando apresentadas de modo claro e respeitoso, sem jargões desnecessários e sem pretensão de doutrinar. Muitos acadêmicos, porém, isolam-se em linguagens excessivamente abstrusas, como se o filosofar fosse privilégio de poucos. Tal elitismo não apenas afasta o público, mas também empobrece o diálogo entre universidade e sociedade.

Não se trata de diluir o rigor, mas de comunicar com clareza. Tampouco se trata de doutrinar ideologicamente o leitor em reação ao mercado cultural — tentativa fadada ao fracasso em um ambiente já saturado de polarizações emocionais. É preciso dialogar. Isso inclui esclarecer apropriações problemáticas do estoicismo, como certas leituras associadas a movimentos ideológicos contemporâneos, mas sem condenar moralmente seus adeptos. Muitas dessas pessoas são, antes de tudo, vítimas de discursos persuasivos que exploram carências e fragilidades, transformando filosofia em mercadoria.

O verdadeiro elitismo consiste em supor que o conhecimento conquistado pelo erudito é “bom demais” para o público geral. Nossa experiência com divulgação científica mostra o contrário: o público é capaz de reconhecer qualidade quando ela lhe é apresentada de modo acessível. A história da difusão da música clássica oferece um exemplo eloquente: quando obras complexas são levadas ao povo com mediação adequada, elas encontram ressonância.

Democratizar o conhecimento não significa banalizá-lo, mas torná-lo acessível. Essa é a via que propomos: nem isolamento acadêmico, nem simplificação irresponsável, mas um esforço constante de comunicação clara, rigorosa e respeitosa. O interesse contemporâneo pelo estoicismo, mesmo quando inicialmente marcado por equívocos, pode tornar-se ocasião para ampliar horizontes e aprofundar a reflexão. Cabe à filosofia não ridicularizar, mas orientar; não excluir, mas convidar; não dogmatizar, mas esclarecer.


Artigo publicado na Perspectiva Filosófica, v. 52 n. 4 (edição especial) (2025) | Acesse aqui