Sem biodiversidade, não há justiça climática!

Grégori de Souza

Doutorando em Filosofia na PUCPR em cotutela com a Universidade de Coimbra; Professor da Graduação EAD da PUCPR

17/10/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Hans Jonas da Anpof

O planeta em colapso e a face invisível da crise

Vivemos um tempo em que a Terra parece oscilar entre a exuberância e o colapso. Por um lado, nunca a ciência conheceu tanto sobre o funcionamento dos ecossistemas, a origem da vida e a delicada rede de interdependências que sustenta o planeta. Por outro, nunca estivemos tão próximos de romper com essa rede. O que se anuncia no horizonte não é apenas uma crise ambiental, mas uma crise civilizatória — e talvez a mais profunda de todas: a erosão acelerada da biodiversidade.

Essa erosão não é um evento distante nem uma abstração científica; ela já se faz sentir nas secas prolongadas, nas chuvas torrenciais, nas pandemias que saltam de outras espécies para a nossa, na perda de solos férteis e na escassez crescente de água potável. Cada espécie extinta, cada floresta derrubada, cada rio contaminado são fios arrancados da tapeçaria da vida — e quando muitos desses fios se perdem, o tecido inteiro começa a se desfazer.

Apesar disso, o debate público sobre a emergência climática ainda costuma girar em torno do carbono, dos combustíveis fósseis e do aquecimento global, relegando a biodiversidade a um segundo plano, como se fosse um tema secundário ou meramente estético. Nada poderia estar mais equivocado. A diversidade biológica não é um detalhe decorativo do planeta, mas a própria condição de estabilidade do seu Frágil Equilíbrio (2025). Sem ela, a Terra perde sua capacidade de regular ciclos vitais, estabilizar o clima e sustentar a vida. Sem ela, as bases materiais da justiça — alimentar, hídrica, climática e social — se desfazem.

É por isso que qualquer discussão séria sobre justiça climática precisa começar pela biodiversidade. A destruição da diversidade da vida é, ao mesmo tempo, causa e consequência da emergência climática. É também sua dimensão mais silenciosa e invisível — e, justamente por isso, a mais perigosa. Recuperar a centralidade da biodiversidade é reconhecer que não há futuro possível sem ela, e que o ideal de justiça se torna vazio se não incluir o cuidado com a vida em todas as suas formas.

Hans Jonas e a solidariedade de interesses

Nenhum pensador do século XX foi tão incisivo ao refletir sobre o vínculo entre humanidade, natureza e responsabilidade quanto Hans Jonas. Em sua obra magna, O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica (1979), ele formulou uma ética voltada para a era tecnológica, em que o poder humano adquiriu a capacidade inédita de ameaçar a totalidade da biosfera. Essa nova condição exige, segundo o autor, uma expansão radical da responsabilidade moral: “O futuro da humanidade é o primeiro dever do comportamento coletivo humano na idade da civilização técnica [...]. Esse futuro da humanidade inclui, obviamente, o futuro da natureza como sua condição sine qua non” (Jonas, 2006, p. 229).

No cerne da proposta jonasiana está a noção de “solidariedade de interesse”, conceito segundo o qual os destinos humano e extra-humano estão intrinsecamente entrelaçados: “os interesses humanos coincidem com o resto da vida, que é sua pátria terrestre no sentido mais sublime da expressão” (Jonas, 2006, p. 229). A preservação da biodiversidade não é, portanto, um dever adicional ou secundário, mas parte constitutiva do dever humano para consigo mesmo. Cuidar da biodiversidade é cuidar do próprio ser humano, porque este não existe fora do tecido que a vida tece.

Jonas rejeita, assim, o “reducionismo antropocêntrico” dos sistemas éticos tradicionais, segundo o qual o dever se dirige apenas ao humano. O reducionismo antropocêntrico significa, afirma Jonas, apenas “reduzir e desumanizar o homem, pois a atrofia da sua essência [...] contradiz o seu objetivo expresso, a sua preservação sancionada pela dignidade do seu Ser” (Jonas, 2006, p. 229). Ao reconhecer que a continuidade humana depende da continuidade do mundo natural, Jonas dá bases para uma ética que se propõe biocêntrica, capaz de abarcar o conjunto da vida.

Essa solidariedade, observa Jonas, é revelada de modo dramático pelo “perigo comum” que ameaça tanto o homem quanto a natureza: “A solidariedade de destino entre homem e natureza [...] nos permite descobrir novamente a dignidade própria da natureza, conclamando-nos a defender os seus interesses para além dos aspectos utilitários” (Jonas, 2006, p. 230). Proteger a biodiversidade não é apenas uma exigência ecológica, mas também um imperativo ético e metafísico: trata-se de reconhecer a dignidade inerente da vida em sua pluralidade e complexidade.

A impertinência do poder e o desequilíbrio do mundo

Jonas advertiu que a civilização tecnológica rompeu um equilíbrio milenar. Até recentemente, mesmo a crescente intervenção humana não alterava as leis ecológicas que impediam a supremacia de uma espécie sobre as demais. Para o autor, “a severa lei da ecologia impedia toda pilhagem excessiva de uma espécie por outra [...], garantindo, assim, a preservação do conjunto” (Jonas, 2006, p. 230). O avanço técnico, porém, mudou tudo. Apenas com a “superioridade do pensamento e com o poder da civilização técnica [...] foi possível que uma forma de vida, ‘o homem’, fosse capaz de ameaçar todas as demais formas (e com isso a si mesma também)” (Jonas, 2006, p. 231).

O problema, diz Jonas, é a crença ilusória na “invulnerabilidade do todo”, que supõe que a natureza permaneceria “imperturbada pela impertinência humana” (Jonas, 2006, p. 33). Essa crença alimentou a exploração desenfreada dos ecossistemas e a expansão ilimitada do poder técnico, levando-nos a ultrapassar sete dos nove limites planetários[1] — entre eles, os referentes à biodiversidade, ao uso do solo, ao ciclo do nitrogênio e fósforo, às mudanças climáticas, ao uso de água doce, à poluição química por microplástico e, mais recentemente, à acidificação dos oceanos. O resultado é um desequilíbrio múltiplo e delicado: “Os limites são ultrapassados, talvez sem volta atrás, quando esses esforços unilaterais arrastam o sistema inteiro, dotado de um equilíbrio múltiplo e delicado, para uma catástrofe do ponto de vista das finalidades humanas” (Jonas, 2006, p. 300).

A técnica moderna ampliou nossa capacidade de agir, mas não nossa capacidade de prever e controlar as consequências dessas ações. Por isso, afirma Jonas, “o intelecto prático emancipado [...] confronta a natureza não só com o seu pensamento, mas com o seu fazer, cujo modo não é mais compatível com o funcionamento inconsciente do conjunto” (Jonas, 2006, p. 231). A natureza, antes autorregulada, tornou-se vulnerável à ação humana — e essa vulnerabilidade exige um novo princípio ético: o princípio responsabilidade.

Proteger a vida, proteger o futuro

Sem biodiversidade, não há justiça climática. Esta não é uma metáfora poética, mas uma verdade que precisa ser assumida como força ética. A justiça climática — e, por extensão, qualquer projeto de justiça social e política — depende da preservação da trama da vida que sustenta o frágil equilíbrio da Terra. Sem a diversidade biológica, o planeta perde sua capacidade de se autorregular, de oferecer serviços ecossistêmicos essenciais, de amortecer impactos climáticos e de sustentar a existência humana e não humana.

Hans Jonas nos lembra que a responsabilidade pelo futuro da humanidade inclui, necessariamente, a responsabilidade pela totalidade da biosfera. Essa responsabilidade não decorre apenas do interesse próprio, mas de uma solidariedade mais profunda, que reconhece a dignidade inerente da vida e a interdependência de todos os seres. É a solidariedade de destino entre homem e natureza que nos permite “descobrir novamente a dignidade própria da natureza” (Jonas, 2006, p. 330).

O desafio ético de nosso tempo é, portanto, o de transformar essa consciência em ação. É o de conter a impertinência do poder técnico e orientar a razão humana para a proteção do frágil equilíbrio do mundo. É o de cultivar políticas, práticas e imaginários que reconheçam na biodiversidade não um recurso a ser explorado, mas um bem comum a ser cuidado. É o de compreender que, ao proteger a diversidade da vida, estamos protegendo a nós mesmos — não apenas enquanto espécie, mas enquanto parte de uma comunidade planetária maior.

A justiça climática, em seu sentido mais radical e verdadeiro, não começa nas conferências internacionais nem nos tribunais. Ela começa no solo fértil, nas florestas vivas, nas águas limpas, nas interações invisíveis que tornam possível a vida. Começa no reconhecimento de que nossa pátria não é uma abstração nacional, mas a totalidade da vida da qual fazemos parte. E começa, sobretudo, no compromisso de garantir que essa vida — múltipla, complexa, bela e frágil — continue a florescer muito depois de nós.


Referências

Souza, Grégori de; Oliveira, Jelson; Bugalski, Lucas Miguel; Vasconcelos, Thiago. Frágil Equilíbrio: justiça climática e responsabilidade ambiental. Caxias do Sul: EDUCS, 2025.

Jonas, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.


Notas

[1] Seven of nine planetary boundaries now breached – ocean acidification joins the danger zone. Disponível em: https://www.pik-potsdam.de/en/news/latest-news/seven-of-nine-planetary-boundaries-now-breached-2013-ocean-acidification-joins-the-danger-zone


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