Sustentabilidade, Inteligência Artificial e Ecofeminismo

Nythamar de Oliveira

Professor titular do PPG-Filosofia da PUCRS

13/10/2025 • Coluna ANPOF

Em colaboração com GT Teorias da Justiça da Anpof

A crise climática contemporânea tornou inadiável a tarefa de repensar os fundamentos éticos, políticos e epistemológicos da nossa relação com a Terra e com as tecnologias que moldam o mundo em que vivemos. Sustentabilidade, Inteligência Artificial (IA) e Ecofeminismo não são apenas bandeiras de movimentos sociais ou temas de conferências internacionais: são dimensões interdependentes de um mesmo desafio civilizacional, que envolvem redefinir a maneira como produzimos conhecimento, como nos relacionamos com o meio ambiente e como imaginamos a justiça em tempos de catástrofes ecológicas e desigualdades globais.

Foi nesse contexto de hype da IA e de crise climática que tivemos uma proposta de criação de um Instituto Nacional de IA e Sustentabilidade (INCT-IAS) aprovada pelo CNPq e pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a fim de implementar um projeto de pesquisa interdisciplinar para educar de forma crítica, ética e responsável usuários e desenvolvedores de IA, considerando a sustentabilidade ambiental, social e econômica. Trata-se de promover tanto uma IA sustentável quanto a sustentabilidade impulsionada por sistemas de IA, fomentando a inclusão social através da inclusão digital. A filosofia possui mais de 2.500 anos de inovação em pesquisa interdisciplinar, desde sua contribuição decisiva para a emergência de quase todas as áreas científicas até as novas empreitadas em bioética, cibernética, ética ambiental, neuroética e ética da IA. 

Tanto a IA quanto a Sustentabilidade são consideradas atualmente duas das áreas de pesquisa científica mais importantes e prioritárias, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Sabemos que a IA generativa (como o ChatGPT, Gemini, Copilot, DeepSeek, Claude, Grok, Perplexity, etc) tem sido identificada como uma grande ameaça ambiental: sistemas e dispositivos de IA generativa possuem bilhões de parâmetros, emitindo 5 vezes mais carbono e consumindo 8 vezes mais energia (especialmente eletricidade) e recursos naturais (água) para treinamento, implantação e ajuste fino (fine-tuning) do que as cargas de trabalho típicas. A IA generativa também afeta a biodiversidade e a sustentabilidade, já que os data centers estão entre os maiores consumidores globais de energia. Por outro lado, a IA é um recurso tecnológico importante para encontrar soluções eficientes que promovam a sustentabilidade e a energia limpa.

Nesse contexto de pesquisa interdisciplinar, propõe-se uma reformulação do equilíbrio reflexivo amplo, conceito originalmente desenvolvido por John Rawls como método de justificação moral e política, e posteriormente adotado por diversos campos da ética aplicada - da bioética à ética da IA. A ideia é usar esse dispositivo reflexivo não apenas como um método normativo, mas também como uma ferramenta crítica para repensar o papel da tecnologia e da sustentabilidade a partir de uma perspectiva decolonial e ecofeminista.

O equilíbrio reflexivo foi concebido para harmonizar princípios gerais de justiça com juízos morais concretos e intuitivos, evitando tanto o dogmatismo normativista (de modelos éticos tradicionais) quanto o empirismo reducionista (de modelos naturalistas eliminacionistas). Com efeito, argumenta-se que as teorias normativas - mesmo as mais sofisticadas - permanecem presas a um déficit fenomenológico de metodologia, ou seja, a uma insuficiência em compreender como os sujeitos e agentes concretos vivem, sentem e sofrem as injustiças estruturais em seus contextos históricos e materiais.

As éticas formais e os modelos de regulação de tecnologias inteligentes correm o risco de universalizar perspectivas eurocêntricas, masculinas e coloniais de racionalidade, ignorando a pluralidade de experiências, saberes e cosmologias do Sul Global. É aqui que a proposta de um equilíbrio reflexivo amplo e decolonial se torna essencial: ela propõe incorporar vozes subalternas, epistemologias feministas e ecologias do cuidado no próprio processo de deliberação ética, numa perspectiva dinâmica de retroalimentação coerentista.

Inspirando-se na tradição crítica da chamada Escola de Frankfurt - em especial, nas leituras de Marcuse e Habermas - pode-se mostrar como a racionalidade tecnológica moderna, ao mesmo tempo que emancipa, também domina. As tecnologias de informação e comunicação, especialmente a IA, não são neutras: elas moldam subjetividades, distribuem poder e definem quem fala e quem é silenciado nas esferas públicas digitais. Habermas já alertava para o risco da colonização do mundo da vida pela lógica instrumental e mercadológica. Hoje, essa colonização manifesta-se na forma de controle algorítmico da comunicação e na concentração de poder das grandes corporações de tecnologia - as chamadas big techs. O paradoxo é evidente: quanto menor a participação de determinados grupos no ciclo de vida de um sistema de IA, maior tende a ser o impacto que esse sistema terá sobre suas vidas.

Daí decorre a urgência de uma teoria crítica decolonial da IA, capaz de desmascarar os novos mecanismos de exclusão e dominação que se disfarçam sob a promessa de eficiência, neutralidade e inovação. A sustentabilidade, nesse horizonte, não pode ser reduzida a métricas de eficiência energética ou a relatórios corporativos sobre “responsabilidade ambiental”. Ela é, antes de tudo, um ethos democrático ecológico - uma forma de pensar, decidir e agir que integra justiça social, igualdade econômica e equilíbrio ambiental.

Assim, deve-se compreender a sustentabilidade como o habitar consciente de um oikos compartilhado da vida humana e não-humana, no qual se entrelaçam economia, ecologia e ética. Sustentabilidade, portanto, não consiste apenas em conservar a natureza, mas também reconstruir as bases políticas e morais da convivência no planeta.

O ecofeminismo emerge como um eixo central nessa reconstrução. Longe de ser apenas uma corrente ambientalista com sensibilidade de gênero, o ecofeminismo denuncia a conexão profunda entre a exploração da natureza e a opressão das mulheres - ambas fundamentadas em uma racionalidade patriarcal e colonial que hierarquiza razão sobre emoção, cultura sobre natureza e homem sobre mulher. As mulheres, especialmente as indígenas, negras, periféricas e camponesas, possuem conhecimentos e práticas de sustentabilidade ancestral que foram sistematicamente desvalorizados pela modernidade ocidental. Reconhecer esses saberes é uma condição para superar o déficit fenomenológico das teorias normativas modernas, abrindo espaço para uma ética do cuidado, da interdependência e da vulnerabilidade compartilhada.

Essa ética ecofeminista propõe uma revolução epistemológica e política: em vez de um sujeito autônomo, racional e masculino, coloca no centro um sujeito relacional, situado e solidário, que reconhece sua dependência do mundo natural e dos outros seres vivos. Em tempos de Antropoceno, esse deslocamento é vital para repensar a própria noção de justiça climática. A justiça climática não se resume à mitigação das mudanças climáticas; ela exige enfrentar as causas estruturais das desigualdades que tornam certas populações mais vulneráveis aos desastres ambientais. A interseccionalidade, enquanto conceito-chave dos feminismos plurais contemporâneos, torna-se aqui uma lente ética indispensável para compreender como raça, gênero, classe e território se entrelaçam nos impactos da crise climática. Um exemplo paradigmático foram as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, que deslocaram milhares de pessoas e expuseram os efeitos combinados da mudança climática, da desigualdade urbana e da negligência política. As mulheres, especialmente as chefes de família e as trabalhadoras informais, foram desproporcionalmente afetadas. Essa perspectiva ecofeminista e decolonial não busca apenas reparar injustiças passadas, mas propor novas formas de convivência e participação democrática na gestão ambiental e tecnológica. Em vez de um modelo de desenvolvimento extrativista e concentrador, propõe-se uma ecologia política baseada na solidariedade e no cuidado mútuo.

Por isso, a articulação entre IA e sustentabilidade requer políticas públicas éticas e interdisciplinares, observando que as discussões sobre IA sustentável ainda são dominadas pelo Norte Global (EUA, União Europeia e países da Commonwealth), deixando de lado o protagonismo do Sul Global. A proposta do INCT-IAS surge justamente para preencher essa lacuna, articulando pesquisa, educação ética e políticas públicas no contexto brasileiro e latino-americano. Diante desse panorama, a teoria crítica precisa atualizar seu horizonte emancipatório, incorporando as lutas de gênero, raça, classe e ecologia como dimensões inseparáveis. A teoria crítica decolonial propõe justamente isso: reconstruir os fundamentos normativos da democracia a partir da experiência histórica dos povos colonizados e das epistemologias do Sul.

O ecofeminismo, nesse sentido, é mais do que um movimento ambiental ou feminista, mas se revela uma proposta de reconstrução normativa do humano e do mundo natural como realidades interdependentes. Ele nos convida a pensar a justiça climática não como mera compensação, mas como uma reparação simbiótica que envolve restaurar o equilíbrio entre os sistemas vivos e os sistemas técnicos. A partir de uma abordagem interseccional entre ética, tecnologia e ecologia, propõe-se uma nova gramática da sustentabilidade baseada no equilíbrio reflexivo decolonial e ecofeminista. Esse equilíbrio supõe uma escuta ativa das vozes historicamente silenciadas, um reconhecimento da interdependência planetária e uma crítica à racionalidade instrumental que ainda domina a economia global e o desenvolvimento tecnológico.

Mais do que uma teoria, trata-se de um projeto civilizacional: repensar a democracia em escala planetária, integrando justiça social, igualdade de gênero, responsabilidade ambiental e inclusão digital. O ecofeminismo fornece as bases éticas e afetivas dessa reconstrução, lembrando-nos que o cuidado (com o outro, com o ambiente, com a própria tecnologia) não é fraqueza, mas a forma mais radical de resistência e de transformação. Em última análise, a sustentabilidade só será possível quando conseguirmos equilibrar razão e sensibilidade, técnica e natureza, justiça e cuidado, transformando a inteligência artificial em inteligência planetária, guiada não pela exploração, mas pela solidariedade e pela justiça climática.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.

DO MESMO AUTOR

Proposta de Trabalho da Coordenação de Área da Filosofia: Avaliação CAPES Quadriênio 2018-22

Evanildo Costeski

Coordenador de Programas Profissionais (UFC)

24/05/2018 • Coluna ANPOF