Tu não comerás: a fome como arma de guerra
William Costa
Professor de Filosofia da UECE
05/08/2025 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Filosofia Política Contemporânea da Anpof
Ao contrário do que geralmente se supõe, comer e beber não são apenas gestos comuns entre humanos e animais. No caso dos homens e das mulheres, a alimentação não se limita a uma função orgânica de manutenção da vida, mas torna-se ocasião de reconhecimento, pertencimento e ritual. A mesa, mais do que espaço de nutrição, é cenário de linguagem, de partilha simbólica, de reconhecimento da fome como condição universal. Se há algo de vital no alimento, não é tanto sua suposta capacidade de adiar a morte, mas sua função de inscrever o sujeito em uma trama social e afetiva. A fome não é apenas uma sensação fisiológica que sinaliza a carência de energia; ela é, antes de tudo, a percepção aguda de nossa vulnerabilidade diante do mundo e do outro. Ao sentir fome, não tocamos apenas os limites do corpo, mas uma dimensão fundamental da existência: nossa condição de exposição, falta, dependência e relação com o outro.
Comer, nesse sentido, é um gesto que fala. Toda refeição é, em alguma medida, um enunciado de partilha: eu te reconheço como outro, eu me reconheço em ti, tu tens lugar à minha mesa. A linguagem do alimento, anterior à linguagem verbal, articula-se por meio de gestos que carregam sentido: o ofertar, o ceder, o dividir. Mesmo em silêncio, comer é dizer: há fome, e, portanto, há outro. Mas essa partilha não se restringe à presença física de um outro. Mesmo quando se está sozinho à mesa, comer é atravessado por vestígios de alteridade: o alimento preparado por alguém, a receita herdada, o prato que remete a uma memória, a lembrança de uma ausência. Comer é sempre um ato mediado por linguagem, não apenas no sentido simbólico, mas na inscrição concreta de uma rede de relações, de gestos, de histórias e de nomes. Ninguém come absolutamente só, porque todo alimento já foi tocado pela mão, pelo desejo ou pela palavra de um outro.
Comer, assim, é mais do que um ato vital: é uma forma de linguagem que comunica, convoca e vincula. A refeição é a cena onde corpo e palavra se entrelaçam na experiência da convivência. Negar o alimento, portanto, é interditar a possibilidade de linguagem, é silenciar um modo fundamental de estar com o outro. É por isso que a fome, quando convertida em instrumento de guerra, opera como uma das formas mais brutais de violência. Trata-se de um ataque não apenas ao corpo biológico, mas ao laço simbólico que constitui a humanidade. A fome deliberadamente imposta deixa de ser um acidente ou uma consequência do conflito: ela se torna uma estratégia, um cálculo, um programa necrofômico de extermínio.
O que se vê hoje na Palestina, particularmente na Faixa de Gaza, é a expressão trágica desse dispositivo. A destruição sistemática de infraestrutura alimentar, o bloqueio de caminhões com ajuda humanitária, o bombardeio de supermercados, o impedimento de acesso à água potável, a recusa na autorização de entrada de combustível para refrigerar alimentos e operar hospitais: tudo isso revela uma política de morte que não mira apenas em soldados ou combatentes, mas em corpos civis famintos, em crianças desnutridas, em mães desesperadas, em idosos esvaziados de forças. A fome, nesse contexto, não é uma consequência colateral do cerco militar, ela é o próprio cerco.
Essa estratégia revela a textura do necrofomicídio, uma política destinada a gerir ativamente a privação de alimentos a determinadas populações. O necrofomicídio opera no cruzamento entre a fome como carência e a morte como política de governo contra populações. Nessa lógica, a fome se torna uma linguagem invertida: em vez de enunciar o vínculo, ela enuncia a negação. A língua, nesse contexto, é sequestrada de seu potencial ético e transformada em arma. A própria linguagem da guerra, ao designar “corredores humanitários”, pausas para entrega de comida ou "ajuda alimentar", assume uma retórica que oculta o fato de que a fome não é efeito colateral, mas estrutura de dominação. A fome se torna, então, um discurso mudo, imposto sobre os corpos como sintaxe da opressão: o corpo faminto fala sem voz, geme sem som, grita sem escuta.
Matar pela fome é devastar não apenas o corpo, mas o sujeito em sua inteireza: esvaziá-lo de si, arrancar-lhe a capacidade de dizer “sinto fome” e de ser ouvido, fazê-lo sentir culpa, vergonha, raiva, medo e tristeza. É destruir a possibilidade de reconhecimento mútuo, anular a gramática do vínculo, silenciar o lugar do outro enquanto outro. É por isso que a fome imposta é mais do que um crime de guerra: é um crime contra a linguagem. Não por acaso, os campos de extermínio, os cercos militares e os bloqueios coloniais são sempre acompanhados do empobrecimento da língua: não apenas porque o corpo faminto não fala, mas porque nossas palavras e categorias não dão conta de expressar a tragédia e a dor do outro. O que está em jogo não é apenas o pão, mas a palavra.
Negar o alimento não é apenas omitir um recurso biológico; é calar uma palavra fundamental, interromper a gramática do reconhecimento, impedir a enunciação do outro como sujeito. Tu não comerás não é apenas uma sentença de morte. É a formulação de um interdito ético: o interdito do outro enquanto outro.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.