Um apelo do porvir
Michelle Bobsin Duarte
Professora colaboradora do PPGFIL-UFRRJ; Pós-doutoranda na PUCPR, bolsista CAPES-PIPD
31/10/2025 • Coluna ANPOF
Em colaboração com GT Hans Jonas da Anpof
Em recente entrevista ao DW Brasil, a ministra do meio ambiente Marina Silva fez uma colocação simples, mas que carrega um profundo significado filosófico. Ao responder à pergunta da jornalista sobre o que ela mudaria se tivesse o poder de mudar apenas uma coisa, algo que, de um olhar do futuro, ela considerasse um marco, Marina é certeira: “mudar a mentalidade, sobretudo a mentalidade de dizer e não fazer.(...) Mudar a nossa mentalidade, parar de destruir os recursos de milhares de anos pelo lucro de poucas décadas. Mudar a mentalidade de que para ser próspero a gente precisa consumir mais. (...) Nós não precisamos ter para nos sentirmos prósperos e felizes.” [1]
A fala da ministra expressa o desejo de uma mudança da perspectiva coletiva da humanidade em relação à Terra e está profundamente em consonância com o pensamento filosófico sobre a questão ecológica. Marina, mulher amazônida e ex-seringueira, viveu e vive a luta pela preservação de seu mundo, um mundo que parece ser constituído de significados distintos daqueles que enxergam a Terra como simples matéria a ser explorada para satisfazer o desejo de “progresso” infinito. Marina guerreira na linha de frente dos combates contra as forças destrutivas da vida, defensora dos interesses dos povos das florestas, de humanos e não humanos, em continuar seus modos de vida. Entenda-se por povos das florestas seres humanos e não humanos que compartilham interesses comuns na preservação das condições de existência global.
A ideia de que muitos mundos compõem o mundo comum está se tornando cada vez mais necessária para a compreensão da complexidade política e social que habitamos. A velha ideia de um mundo comum em que comporíamos uma parte de um todo unificado, que seríamos pequenas partes multiculturais de uma natureza única, parece se esfacelar à medida que outras narrativas começam a ocupar os lugares que antes lhes eram negados.
Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak (2019) nos apresenta um pouco da cosmovisão indígena dos Krenak sobre as relações dos humanos com o que nós, ocidentais, chamamos de natureza e coloca em questão a ideia de uma humanidade universal e homogênea, pois há modos de ser humano no planeta.
A violência e a desigualdade enfrentada pelos povos indígenas até hoje revelam a fragilidade do conceito de humanidade. Krenak nos lembra de uma série de conflitos e tensões enfrentados por comunidades tradicionais na defesa de seus modos de vida no encontro com as diretrizes modernas e coloniais do nosso sistema econômico. Justamente porque as práticas tradicionais dos povos originários, dos quilombolas, dos ribeirinhos e caiçaras pressupõem o entendimento da dependência das relações entre os seres vivos. E, neste sentido, os saberes e as práticas tradicionais revelam outros entendimentos de mundo.
Compreender o mundo de modo distinto dos ditames da racionalidade científica ocidental e resistir nos seus significados passou a ser tolerado na modernidade[2], contudo, na forma de “crenças”, como se os outros entendimentos de mundo não tivessem a capacidade de lidar com o desencantamento e a perda de ilusões sobre a “natureza”.
Em um artigo muito provocativo, Bruno Latour (2002)[3], nos alerta sobre uma guerra de mundos velada sob o signo da modernidade. Essa guerra não segue o sentido convencional, uma vez que se trata de uma guerra de visões de mundo, de formas conflitantes de “construir” e compreender a realidade, uma guerras de ontologias. Para Latour, o projeto ocidental de modernização impôs a sua concepção de natureza, ciência e mundo, muitas vezes, de modo violento aos diferentes mundos que encontrou pelo caminho. A noção de uma natureza mecânica e desprovida de anima, que produz avanço tecnológico, serviu para unificar os diferentes mundos que aderiram a esse projeto.
Denúncia semelhante a essa encontramos na obra The Phenomenon of Life: Towards a Philosophical Biology (1966), de Hans Jonas, para quem o paradigma de conhecimento moderno foi responsável por um enorme prejuízo no entendimento do fenômeno da vida, ao desconsiderar a interioridade e a subjetividade inerente a todos os seres vivos, além de suas agências e intencionalidade na relação com o ambiente. Ao realizar essa tarefa, a ciência nascente aliada ao também jovem capitalismo, sob a égide da modernização, abriram caminho para a exploração desenfreada do planeta.
A guerra dos mundos, a disputa de diferentes valores e significados em relação ao que habitualmente chamamos “natureza”, está tão ativa quanto no auge das invasões de territórios da modernidade. Contudo, o risco existencial eminente traz a possibilidade de que essa possa ser uma das últimas batalhas na tentativa de afirmar visões de mundo que não sejam ecocidas. Precisamos “mudar a mentalidade”, como afirmou a ministra Marina Silva, se quisermos vislumbrar a possibilidade de um futuro habitável no planeta.
Donna Haraway (2016)[4], professora emérita do Departamento de Historia da Consciência da Universidade da Califórnia, propõe uma saída interessante para a mudança de mentalidade: semear outras formas de nos relacionarmos com o mundo por meio da narrativa. Ao utilizar a fabulação especulativa para abordar conceitos, Haraway nos conta estórias para imaginarmos outros mundos possíveis, outras formas de nos relacionarmos com os seres não humanos. Uma das ideias centrais do livro é simpoiese, que significa fazer com, um conceito que explora a concepção de que a realidade é produto das relações, já que ninguém faz nada sozinho.
Imaginar outros mundos possíveis já é um começo, contudo, somente isso não basta. Aliar-se aos defensores dos mundos que possibilitam um futuro habitável, fazer jus a essa aliança politicamente, pode ser a única chance de equilibrarmos essa guerra.
Notas
[1] O apelo de Marina Silva antes de o mundo se voltar para Belém. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BwKXEC9gkKg
[2] STENGERS, Isabelle. “La Malédiction de la Tolérance”. Cosmopolitiques VII. Pour en Finir Avec la Tolérance: 7-17. Paris: La Découverte, 1997.
[3] LATOUR, Bruno. War of the Worlds: What about peace? Chicago: Prickly Paradigm Press, 2002.
[4] HARAWAY, Donna. Staying with the Trouble: Making kin in the Chthulucene. Durham: Duke University Press, 2016.
A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.