Um desafio ao estado democrático: a fé como pathos político

Daniel Rodrigues da Costa

Doutor em Filosofia pela USP

13/11/2025 • Coluna ANPOF

O professor João Cezar de Castro Rocha tem ressaltado, nos últimos anos, como a teologia do domínio é parte integrante de uma estratégia da extrema direita, no Brasil e no mundo, para trazer ao discurso político um afeto escatológico talvez inédito. Trata-se de atribuir à oposição ideológica a alcunha de Filhos das Trevas – para manter a origem maniqueísta das nomenclaturas –, ao passo que se costuma identificar a si próprio como Filho da Luz. Assim, todo discurso contrário é visto como inimigo, e mesmo posições claramente plausíveis, como a de que o aborto é caso de saúde pública, passa a ser visto como um discurso do mal. Esses posicionamentos, certamente deletérios a uma democracia saudável, têm obtido êxito: basta verificar como figuras importantes da política ou utilizam dessa retórica para angariar votos, ou se tornam reféns dela, e normalmente aderem-na para não perder esses mesmos votos; eu poderia dizer que, com certeza, muitos políticos não gostariam de encampar o tom religioso em seus discursos, mas se veem cercados por esse turbilhão e não podem simplesmente se afastar, sob pena de serem acusados de Filhos das Trevas.

Certamente, isso não quer dizer que eles não tenham responsabilidade pela criação do atual ambiente da política brasileira, mas creio que, à parte aqueles que se utilizam da religião para algum “plano de poder”, muitos gostariam de discutir as pautas de moralidade pública sem ter que necessariamente pedir a bêncão a alguém. É que a moralidade pública, se não puder escapar de uma mistura com alguma moralidade religiosa, deveria ser ao menos aconfessional. Dado tal ambiente, todos aqueles que estão preocupados com as eleições de 2026 e todos aqueles que estão preocupados com os valores político-sociais, de um modo mais profundo, devem entender que essa questão é inescapável; mais do que lidar com os evangélicos e sua força eleitoral, é preciso entender como a política deve lidar com o discurso religioso e os anseios de uma população que tem na fé um pathos singular, não despertado por nenhum outro discurso. Diante disso, um modo de lidar com esse tema tem se apresentado.

Essa estratégia, que chamarei de delimitadora, parte da ideia de que existem mais pontos de concordância entre diferentes posicionamentos políticos do que a famigerada tese da polarização faz parecer. Assim, seria possível estabelecer um diálogo com quem está em outro posicionamento ideológico sem adentrar nos pontos caros ao discurso religioso: ora, o problema do ônibus lotado, da falta de creche, do posto de saúde sem médico, do preço do feijão, etc., afeta a nossa classe social independentemente de em quem a pessoa votou; seria possível propor soluções da política apelando para superestruturas outras que não a religião, e encontrar caminhos de concordância deixando de lado a fé, assunto de foro íntimo do indivíduo.

Decerto, essa tentativa de diálogo possui suas vantagens, por trazer a conversa e as possíveis divergências ao campo dos temas objetivos, mas possui também enormes desafios. Aqui, quero destacar o desafio trazido por um entendimento, talvez fortalecido na consolidação dos Estados-nação modernos, que tem o pressuposto de ser a fé um elemento subjetivo e de foro particular, não se relacionando ou não devendo se relacionar com a administração pública; assim, seria o caso de dialogar partindo de elementos objetivos, como a mobilidade urbana, a saúde, a inflação, deixando as questões de fé relegadas ao foro íntimo. Em teoria, isso seria suficiente para conectar os diferentes posicionamentos políticos e demonstrar como os problemas reais compartilhados são capazes de convergir pessoas com maior eficiência. Contudo, a religião não é restrita ao foro íntimo dos indivíduos: a teologia do domínio, embora não seja o melhor exemplo, é prova inconteste disso. Muitas das pessoas religiosas acreditam, de forma sincera, que as verdades teologicamente fundadas são verdades epistemológicas e normativas que, quando levadas a todos, permitem que a sociedade se desenvolva em direção ao bem e à justiça. A nossa Constituição de 1988, art. 5o, inciso VI, garante liberdade de crença e de culto, e esse inciso costuma ser interpretado como um garantidor da possibilidade de exteriorização da crença, inclusive no âmbito público: a plenitude da fé, acredita-se, só é alcançada quando aquilo que é pactuado no ato litúrgico pode ser convertido em ações no "mundo externo". Muito do discurso político-religioso da atualidade usa dessa forma interpretativa, e leva ao fiel a possibilidade e o dever de se engajar na vida pública, de ocupar todos os espaços e, até mesmo, de ser politicamente ativo, pressionando e influenciando todas as áreas possíveis. Vale lembrar, relegar a discussão ao âmbito jurídico é ineficaz: o lobby religioso no legislativo nunca esteve em tão alta conta.

A ideia, portanto, de se restringir o discurso religioso ao foro íntimo e buscar acessar o diálogo através dos demais interesses que formam aquele indivíduo deverá lidar, necessariamente, com a interpretação pungente de que a religião é o afeto mais importante. Isso significa que os temas objetivos, que impactam diretamente a vida das pessoas, não são compreendidos fora de um contexto hermenêutico que inclui a vida religiosa; esse contexto irá tentar rivalizar os dramas do cotidiano com a interpretação religiosa da vida, estabelecendo uma verdadeira batalha de afetos. Não é por acaso que teologias de batalha, com seu ethos militante e um programa de conquista, fazem tanto sucesso no neopentecostalismo. Trata-se de colocar o fiel na posição de intérprete do mundo, mas com um background de conflito que tem na religião necessariamente a chave normativa: quando o problema se apresenta, ele ainda será lido com a hermenêutica político-religiosa que desperta afetos. É difícil vislumbrar um cenário em que o afeto religioso não será o mais forte.

Esse desafio não parece insuperável, mas certamente é daqueles que envolve um enorme esforço coletivo. Faz-se necessário pensar como o Estado democrático pode dialogar com uma racionalidade teológico-bélica sem violentar a laicidade e, ao mesmo tempo, sem marginalizar milhões de cidadãos cuja identidade política é religiosa. Além de uma estratégia comunicacional que visa desarticular a “retórica do inimigo”, a regulação do lobby pode ser um passo importante para avançar nesse desafio; trata-se de tornar o lobby religioso formal e regulado, com registro público das reuniões, esclarecimento de agendas e interesses, de modo a aumentar a legitimidade da atuação desses grupos e reinserir o discurso religioso no jogo democrático normal. Não se trata de inserir ainda mais religião no espaço público: ela já está lá! A regulação é um modo de diminuir a opacidade institucional, garantindo que toda forma de influência esteja submetida às mesmas regras democráticas. É uma forma de reconhecer a legitimidade desses interesses, desde que eles estejam em acordo com as condições de transparência, igualdade e publicidade, tal como todos os demais grupos de interesse. Além de buscar o diálogo com o religioso, é necessário pensar formas institucionais de lidar com esse desafio. Quem as tiver, apresente-as.


A Coluna Anpof é um espaço democrático de expressão filosófica. Seus textos não representam necessariamente o posicionamento institucional.