"O PROF-FILO exige que o projeto do professor e da professora esteja ancorado em um problema real de sua sala de aula": entrevista com Valéria Wilke
17/11/2025 • Entrevistas
O ensino de Filosofia, nos últimos anos, tem ganhado em espaço como um campo de pesquisa e o crescimento e consolidação do PROF-FILO são provas disso. No entanto, ainda há grande dificuldade de se conquistar esse reconhecimento pela área de Filosofia. Quem faz essa reflexão é a profa. Dra. Valéria Wilke (UNIRIO), que concedeu entrevista à profa. Dra. Janyne Sattler (UFSC/presidente Anpof) nesta campanha em que debatemos o ensino de Filosofia na educação básica em nossos canais de comunicação. Wilke é coordenadora do Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO), Núcleo UNIRIO.
Nesta entrevista, Wilke comenta sobre o que chama de cultura bacharelesca que desprestigia e deslegitima a Licenciatura e a formação docente como um fazer filosófico menor. Para ela, essa cultura provém de uma crença de que basta formar-se bons pesquisadores e comentadores de qualidade no campo filosófico para se ter bons professores de Filosofia.
Ao compartilhar o histórico do PROF-FILO e seu envolvimento com o programa, Wilke argumenta que ele exige que o projeto do professor e da professora esteja ancorado em um problema real de sua sala de aula (de onde surgem questões incômodas e importantes de serem ouvidas) e isto é que vai guiar a abordagem filosófica e o processo de pensamento filosófico de sua prática docente. A professora ainda constata que a inserção do PROF-FILO na história recente da filosofia acadêmica brasileira integra um processo de questionamento do cânone filosófico.
Esta entrevista ainda aborda uma crítica da professora às licenciaturas em Filosofia no Brasil, que reproduzem o modelo tradicional de formação centrado no conteúdo disciplinar eurocentrado e questiona a sobre a formação necessária aos licenciandos e licenciandas. Por fim, Wilke também indica como a Anpof e a comunidade filosófica brasileira podem contribuir com a continuidade do mestrado profissional em filosofia, e com o diálogo com quem atua com o ensino de Filosofia na educação básica.
Janyne Sattler: você poderia nos contar um pouco de sua experiência com o PROF-FILO, e o modo como ela se relaciona com sua formação acadêmica específica?
Agradeço a oportunidade de conversar sobre o PROF-FILO, o ensino de Filosofia, e a formação continuada de professores e professoras. Em primeiro lugar, vou apresentar o PROF-FILO, que é o Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO). Ele é um curso de pós-graduação stricto sensu criado pelo Programa de Pós-Graduação stricto sensu para Qualificação de Professores da Rede Pública de Educação Básica (ProEB), uma política pública nacional voltada para a formação de professores. Ele vincula-se à CAPES e tem como objetivo qualificar professores e professoras da Educação Básica das redes pública e privada de ensino. A área de concentração é em Ensino de Filosofia e ele concede o título de Mestre em Filosofia.
A proposta do PROF-FILO surgiu de uma série contínua de discussões e esforços, no âmbito da ANPOF, que, desde 2006 e 2012, conta com a presença do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar e com a ANPOF Ensino Médio (atual ANPOF Educação Básica), respectivamente. Essas mobilizações e articulações levaram, em 2016, à criação e, em 2017, à implantação do PROF-FILO. O programa é em rede e a sede localiza-se na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, que foi escolhida como a instituição responsável pela coordenação geral. Atualmente, ele formado por 25 núcleos associados que funcionam em universidades e institutos federais (incluindo CEFET-RJ e Colégio Pedro II) espalhados pelo Brasil, sendo que o PROF-FILO se faz presente em todas as regiões do país, em maior número no Nordeste. Desde o início de seu funcionamento, o programa já titulou cerca de 500 mestres e atualmente há aproximadamente 700 estudantes matriculados.
Eu estive presente em algumas discussões anteriores à criação do PROF-FILO, seja na ANPOF, seja nos encontros que prepararam o projeto encaminhado à CAPES. Meu engajamento muito se deve à compreensão que tenho e que constantemente repito em aulas e em diferentes fóruns: o futuro da Filosofia no Brasil liga-se essencialmente à educação básica. Essa percepção tem sido alimentada por algumas circunstâncias notórias: anualmente vemos que muitos jovens procuram a Filosofia nas universidades porque tiveram ótimo contato prévio, na educação básica, com o horizonte filosófico; é constatação óbvia que aumentou o número da procura pelo curso de Filosofia com a volta da disciplina, pelo menos, no Ensino Médio. Por outro lado, também é perceptível que alterações em políticas e em marcos legais voltados para a educação básica e para o entendimento do que deve ser esse tipo de processo educativo repercutem necessariamente na formação docente, logo, nas licenciaturas e no jogo de forças que existe nos departamentos de Filosofia. Recordo aqui a legislação em fase de implantação, desde 2024, que estabeleceu a realização do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), que foi alterado em seu escopo e renomeado como ENADE Licenciaturas, e instituiu também a Prova Nacional Docente (PND).
As universidades e Institutos Federais, por meio da Licenciatura, têm a obrigação legal de formar docentes para atuarem na Educação Básica, porque professor/professora não se improvisa, mas forma-se. Compõe essa formação a especificidade dos problemas/temas/abordagens de diferentes tradições de histórias-geografias filosóficas, mas também a perspectiva pedagógica, que, no meu entendimento - compartilhado com tantos colegas da ANPOF, de diferentes GTs -, deve estar sob a responsabilidade dos departamentos de Filosofia. Se considerarmos, por exemplo, a tradição filosófica grega, quem ensina, o que se ensina, para quem se ensina, e como se ensina foram questões que estiveram no centro da reflexão filosófica.
Precisamos recordar que na nossa área há um déficit imenso, nas salas de aula da escola básica, de professores formados em Filosofia. Esse fato ocorre muito em função do movimento pendular de ora a disciplina estar presente no nesta etapa do ensino, ora não. E faço menção à educação básica porque em muitas cidades, em escolas públicas e privadas, já há a oferta regular da disciplina nos últimos anos do ensino fundamental, havendo, inclusive, metodologias específicas para o Filosofar com crianças.
A segunda parte da pergunta faz referência ao modo como minha experiência com o PROF-FILO se relaciona com minha formação acadêmica específica. Proponho abordar essa questão por meio da articulação bacharelado – licenciatura, ou dito de outra maneira, formação específica – formação pedagógica, que é tema muito sensível nos nossos departamentos de ensino.
Eu fui formada dentro da cultura bacharelesca, eurocentrada hegemônica nos cursos de Filosofia no Brasil, e no velho modelo 3+1 (três anos de pura filosofia e um ano de formação pedagógica e estágios). Quando observamos a experiência corriqueira, em muitos de nossos departamentos, percebemos a presença de uma espécie de muro entre bacharelado e licenciatura ao privilegiar o primeiro como o lócus da atividade filosófica, e que faz com que tantos colegas de diferentes universidades afirmem continuamente que atuam no bacharelado porque são pesquisadores e filósofos e quem cuida da formação de futuros docentes são os “outros”, essas entidades invisíveis, no mais das vezes. Apesar de ter caído o velho modelo formativo 3+1, a impressão que tenho é que esse espectro permanece insepulto nas dependências departamentais, alimentando certa cultura bacharelesca que desprestigia e deslegitima a Licenciatura e a formação docente, por conseguinte, como um fazer filosófico menor. Essa cultura provém, para mim, de uma crença solidificada segundo a qual bastaria formar pesquisadores e/ou comentadores de qualidade no campo filosófico, para que tenhamos, materializados, na sala de aula da escola básica, um bom professor ou professora de Filosofia; e que, no máximo, disciplinas como Estágios e Metodologia de Ensino de Filosofia, a cargo das Escolas de Educação em muitas universidades, respondem satisfatoriamente a questões condizentes com o ensino de Filosofia.
Esse espectro insepulto, no meu ver, também está relacionado a pelo menos duas dificuldades. A primeira diz respeito a alguns concursos para as disciplinas Estágios e Metodologia do Ensino de Filosofia (ou que recebe outro nome), que temos acompanhado recentemente. Ora, essas disciplinas requerem saberes e conhecimentos específicos relacionados à prática docente na educação básica e ao campo do Ensino de Filosofia. Tem havido concursos em que no perfil do candidato são solicitadas a graduação e o doutorado em Filosofia. Numa olhada superficial, pode parecer que está tudo bem. Contudo, alguém que possua o diploma de bacharel e nunca pisou no chão da escola estará em conformidade com o perfil. Por sua vez, a área de Filosofia não reconhece o Ensino de Filosofia como campo de pesquisa; a princípio, vagas para orientação não costumam ser abertas para esse tema nos processos de seleção do doutorado; com raras exceções há colegas e programas que aceitam o desenvolvimento da pesquisa doutoral nesse tema, basicamente por causa da aderência que será cobrada na avaliação quadrienal. No mais das vezes, quem se interessa pelo Ensino de Filosofia realiza o doutorado em Educação e esse título não foi contemplado nos perfis de concursos como relatei, que permitem também que um doutor na nossa área que nunca pesquisou ou se interessou pelo tema se inscreva e seja aprovado e contratado naquele concurso para ministrar Estágios ou Metodologia de Ensino. E o ciclo se fecha reforçando a cultura bacharelesca. Como quem estabelece o perfil de um concurso é o conjunto de docentes de um departamento, para mim, tem faltado maior sensibilidade para com os requisitos específicos filosóficos-pedagógicos relacionados à formação docente para a educação básica
A outra questão é a recusa da área Filosofia em reconhecer e validar as pesquisas e as produções voltadas para o Ensino de Filosofia como investigações legítimas do campo filosófico brasileiro, mesmo havendo produção robusta produzida por uma massa crítica de filósofos e filósofas pesquisadores que lidam muito bem com as especificidades requeridas pela formação docente. O GT Filosofar e Ensinar a Filosofar tem atuado para defender, com base em investigações, o Ensino de Filosofia área de pesquisa institucional, no contexto de nossa comunidade filosófica e das agências de fomento. Por sua vez, no âmbito do PROF-FILO, a produção de contribuições filosóficas teórica e de processos e produtos educacionais endossam a maturidade da reflexão sobre aspectos teóricos, práticos e teórico-práticos envolvidos da prática docente como problema filosófico.
Você considera que o mestrado profissional voltado aos professores de filosofia do ensino básico tem conseguido estabelecer um diálogo mais estreito entre as universidades e o chão da escola? Se não, o que falta?
É algo que está em processo de construção nos departamentos de Filosofia, a depender do contexto, com maior ou menor grau de dificuldade, Acredito que o PROF-FILO tem atuado, nos departamentos de Filosofia, como uma ponte que medeia o diálogo entre duas experiências relativas à questão basilar “o que é filosofia?”, que persistem nos nesses espaços e que são marcados, acentuadamente, pela prevalência da cultura bacharelesca e pelo desprestígio da Licenciatura e da formação docente.
Ressalto que diálogo pressupõe abertura para ouvir o outro. Na realidade, pela minha própria experiência, percebo que é um aprendizado a gente se abrir a esse diálogo. E para tanto, volto a dizer: é necessário se predispor a conhecer e a considerar como válido o incômodo de perguntas como: profa, mas não tem filósofa mulher?; não tem filósofo com cara de ribeirinho ou de matuto ressecado pelo sol ou de gente preta como eu?; só tem filósofo grego, ou falando alemão e que já está morto?; o que a filosofia tem a dizer sobre as balas de fuzil que estão no chão da minha escola?; o que a filosofia pode dizer sobre as terras da minha ancestralidade que estão sendo invadidas e sobre os saberes da minha ancestralidade que estão sendo apagados?; “profa, estou cansado de tanta atividade, não aguento mais esse mundo, o que posso fazer?”. Perguntas como estas são feitas com a maior naturalidade por crianças e adolescentes. Colegas filósofos e filósofas que atuam na educação básica lidam questões existenciais como essas e com as tradições filosóficas que podem despertar a turma para o encantamento da Filosofia e para questionamentos que levem às propostas de respostas a inquietações como essas. Em verdade, essas questões não são alheias ao fazer filosófico. Mas para reconhecê-las como indutoras de pesquisas e produtoras de conhecimento, é preciso se dispor à abertura, se dispor a sair, muitas vezes, das zonas do conforto do perímetro conhecido das margens da lagoa e se aventurar no mar, para além do que a visão alcança de terra à vista conhecida.
O fato é que o PROF-FILO tem produzido reflexões filosóficas consistentes, processos e produtos educacionais, que já são públicos, que partem das experiências ocorridas no chão das escolas muito distintas. Diferente de um mestrado acadêmico que prioriza a formação de pesquisadores e de comentadores voltados para abordagens/perspectivas/problemas internas da tradição filosófica, o PROF-FILO exige que o projeto do professor e da professora esteja ancorado em um problema real de sua sala de aula, a partir do qual será enquadrada a abordagem filosófica desenvolvida para dar conta do processo de pensar filosoficamente sua prática docente naquela comunidade escolar, onde brotam perguntas incômodas.
Talvez seja necessário apenas aprender a aceitar as diferenças entre as propostas de um programa acadêmico e de um programa profissional voltado para a formação docente de quem atua na educação básica, sem hierarquizar os saberes envolvidos, as práticas desenvolvidas, o público-alvo.
Quanto às temáticas trabalhadas nas dissertações do mestrado profissional, você considera que elas podem ser um indicativo das demandas da própria sala de aula e do cotidiano vivido pelos e pelas professoras? Nesse sentido, nossas licenciaturas têm elas mesmas dado conta dessas demandas, ou estamos ainda bastante afastados da realidade escolar quando se trata da formação de professores? O PROF-FILO nos ajuda a fazer esse diagnóstico?
Aquelas perguntas acima são exemplos que acontecem repetida e cotidianamente nas salas de aulas de mestrandas e mestrandos do programa.
Vendo de uma maneira macro a inserção do PROF-FILO na história recente da filosofia acadêmica brasileira, constato que ele faz parte do processo de questionamento do cânone filosófico e de ampliação das histórias-geografias do fazer filosófico. Esses fatos podem ser averiguados nos próprios projetos nacionais de pesquisa. Ao contrário de um programa acadêmico onde cada professor elabora um projeto próprio conforme o escopo das linhas de pesquisa, o PROF-FILO possui projetos nacionais e é a partir deles que os docentes e mestrandas /mestrandos desenvolvem suas pesquisas.
Os projetos de pesquisa estão inseridos em duas linhas, a saber, FUNDAMENTOS DO ENSINO, CURRÍCULO E POLÍTICAS EDUCACIONAIS e PRÁTICAS DE ENSINO DE FILOSOFIA. A primeira contempla três projetos voltados para a reflexão epistemológica, teórico-prática de aspectos conceituais, curriculares e políticos do ensino de Filosofia. A outra linha de pesquisa abrange investigações teórico-práticas que abordam temas emergentes no campo filosófico brasileiro. Temos por exemplo, o projeto Filosofia, Tecnologias, Mídias e ensino que lida, por exemplo, com problemas e temas relativos ao impacto das tecnologias e mídias digitais na vida das pessoas e no ensino de Filosofia; o projeto Artes e ensino de Filosofia investiga, por exemplo, diversas formas de expressões artísticas e literárias, seus conteúdos e suportes, na interface com o ensino de Filosofia. O projeto Ensino de Filosofia, Gênero, Feminismos e Decolonialidade contempla diferentes pesquisas sobre temas/problemas que envolvem o gênero, os feminismos e a decolonialidade no contexto brasileiro, tendo em vista uma educação inclusiva, antirracista, não sexista, feminista e decolonial. Já o projeto Leitura, escrita e letramento filosófico aborda possíveis mediações didáticas para as práticas de leitura e de produção textual.
A análise das temáticas trabalhadas nas dissertações do Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO) oferece um valioso termômetro das demandas reais da sala de aula. Diferentemente do mestrado acadêmico, que se orienta, grosso modo, por debates internos à Filosofia, o PROF-FILO, por sua própria natureza, é forçado a se voltar para os problemas concretos do cotidiano escolar. Os temas de pesquisa que têm aparecido não são escolhas arbitrárias, mas reflexo direto dos impasses vividos diariamente pelos professores / professoras que são suscitados, por sua vez, pelo diálogo e/ou provocação de seus alunos e alunas. Desta maneira, parece-me que o elenco de dissertações do PROF-FILO funciona como um diagnóstico vivo e pulsante dos desafios do ensino de Filosofia na educação básica. Quando olho para ele, percebo que a demanda do chão de escola não é por mais teoria de forma abstrata, mas por reflexões filosófico-pedagógicas e ferramentas didáticas que permitam ampliar o repertório filosófico por meio de incorporação de diferentes histórias-geografias filosóficas, e também traduzi-lo para a linguagem, os interesses e as urgências dos jovens.
Esta constatação nos leva a uma crucial questão anterior: as licenciaturas, têm elas mesmas dado conta dessas demandas? E a academia tem olhado com espanto e admiração para essas demandas? Na minha percepção, as licenciaturas em Filosofia, com notáveis exceções, frequentemente reproduzem o modelo tradicional de formação centrado no conteúdo disciplinar eurocentrado, com pouca ou superficial imersão nas especificidades didáticas e na realidade da escola básica, que espelha a sociedade brasileira. Tenho percebido que os currículos das graduações em Filosofia padecem de lacuna experiencial e metodológica entre a formação universitária e o campo de atuação, mesmo reconhecendo que essa situação tem sido mitigada especialmente por políticas públicas voltadas para a formação docente, como o PIBID e a Residência Pedagógica.
Nesse sentido, quando observo os temas das dissertações do PROF-FILO e os processos e produtos criados, percebo que o programa se revela como um espelho que pode auxiliar a fazer esse diagnóstico ao explicitar, de forma empiricamente fundamentada, os pontos cegos da licenciatura; e também como um instrumento que pode contribuir para a correção de rota epistemológica das licenciaturas. Por exemplo, diferentemente do bacharelado, a licenciatura segue regulações nacionais estritas que indicam a obrigatoriedade de contemplar o olhar filosófico lançado sobre temas relativos aos saberes e culturas dos povos originários, aos saberes e culturas de sociedades africanas cujos membros vieram escravizados para o Brasil e participaram ativamente na construção de nossa sociedade, em que pese o racismo estrutural; aos diferentes aspectos presentes na experiência contemporânea de viver na cultura digital e à necessidade do desenvolvimento da compreensão crítica em relação a ela a ser fomentada pela educação informacional, midiática e digital; aos impactos da sociedade androcentrada e patriarcal sobre a vida de mulheres e de homens – cis e trans, para além da heteronormatividade compulsória -, resguardando-se a interseccionalidade. Esse é um pequenino recorte temático que nos permite perguntar: onde estão as disciplinas, nas licenciaturas, que contemplam esses temas em disciplinas obrigatórias?
Como falei antes, professor / professora não se improvisa, mas forma-se. Uma pergunta não sai da minha cabeça há algum tempo: em que medida estamos fornecendo a formação necessária, conforme a legislação brasileira, aos nossos licenciandas e licenciandos? Para finalizar, entendo que o PROF-FILO, portanto, não é apenas mais um curso de pós-graduação. Ele é um programa político-pedagógico que joga luz sobre as fissuras da nossa formação filosófica universitária. As temáticas de suas dissertações e processos e produtos educacionais são a voz coletiva dos professores-filósofos e professoras-filósofas, documentando seus maiores dilemas, anseios, reflexões e propostas teóricas e teórico-práticas. Essa produção evidencia o distanciamento ainda existente entre a licenciatura tal como a conhecemos e praticamos e a complexidade da sala de aula real.
De que modo essas temáticas e esses trabalhos dos profissionais de filosofia contribuem para uma reflexão sobre o conceito de ‘filosofia’ e sua ligação com o ensino? De modo conexo, como essa formação nos possibilita avançar o ensino de filosofia como área legítima de investigação filosófica?
Minha prática docente e o contato mais próximo e contínuo com mestrandos e mestrandas tornam evidente que o ensino de filosofia não é a mera transmissão ou a transposição daquilo que é conhecido pelo docente. Em sala de aula, professores e professoras de Filosofia atualizam a compreensão que possuem do que é a Filosofia, uma vez que esse entendimento vai orientar as práticas pedagógicas e as escolhas que serão feitas.
O processo de reflexão ensejado pelo PROFFILO sempre é um convite para que cada docente volte para sua própria prática e explicite a compreensão de Filosofia que a move, pois não se ensina filosofia a partir de uma neutralidade filosófica, como afirmou Cerlettti, Esse posicionamento é uma das bases do projeto pedagógico do programa, o qual endossa que qualquer ensino filosófico é uma intervenção filosófica (Barra, Barreira, 2021) que ocorre a partir dos textos, ou de problemas, ou dos temas abordados desde uma perspectiva filosófica. Nesse processo de constituir-se como docente, durante os anos formativos e também no chão da escola, foi sendo também constituído todo um repertório de saberes específicos relativos ao ofício, que esses docentes mobilizam a cada entrada em sala de aula, a cada preparação de uma atividade, por exemplo.
Nesse sentido, o PROF-FILO tem se revelado o ambiente propício para a reelaboração das experiências docentes, para o aprimoramento das intervenções filosóficas que mestrandos e mestrandas realizam, e também das ideias que têm sobre o que é a Filosofia e sobre como elas se fazem presentes no cotidiano docente. Todo esse processo materializa-se nas pesquisas desenvolvidas, no exame das práticas, no desenvolvimento dos processos e produtos que no programa, necessariamente, acompanham a investigação. O pano de fundo deste cenário é a velha questão o que é Filosofia?
De que modo a ANPOF, assim como toda a comunidade acadêmica da Pós-Graduação, pode contribuir com a continuidade do mestrado profissional em filosofia, e com o diálogo com os professores mestres que atuam diretamente no chão da escola?
Participantes da comunidade acadêmica podem se engajar nos núcleos como docentes. Podem também conhecer a vasta e crescente produção do campo Ensino de Filosofia produzida no Brasil, tanto as relativas aos processos e produtos educacionais, e também as relativas às questões teóricas e metodológicas que se fazem presentes no ensino de Filosofia. Precisamos ler nossos e nossas colegas que teorizam com consistência, com fundamento, a partir da realidade brasileira, que é vasta e variada. No PROF-FILO encontramos produção teórica de excelência sobre temas que emergem do chão da escola, que atualizam constantemente a velha questão posta nas nossas praças públicas que nos encanta: o que é Filosofia?, O que filosofar. Professores e professoras da educação básica têm muito a contribuir para essas questões.
Convido meus colegas da ANPOF, de outros GTs para além do Filosofar e Ensinar a Filosofar, que no próximo encontro a ser realizado na UFSC, compareçam também às apresentações, às mesas temáticas ligadas ao ensino de Filosofia da ANPOF Educação Básica, aos Seminários Temáticos sobre Ensino de Filosofia, que são espaços da Associação que crescem a cada biênio. Vocês poderão constatar, in loco, a riqueza das discussões filosóficas, a riqueza dos processos e produtos educacionais desenvolvidos do Oiapoque ao Chuí que estão proporcionando que vocês tenham estudantes interessados em Filosofia, nas universidades.
A abertura da ANPOF, anos atrás com a atuação do saudoso ex-diretor da ANPOF, Vinícius Figueiredo, às questões relacionadas à educação básica tem sido crucial para o crescimento da visibilidade e do entendimento das especificidades do ensino de Filosofia na educação básica, no âmbito da comunidade acadêmica. Foi na gestão do filósofo e professor Vinícius B. Figueiredo, 2010-2012, que foi realizada a primeira edição do Encontro ANPOF Ensino Médio, atualmente ANPOF Educação Básica. De lá para cá, a presença de resultados de pesquisa sobre o ensino de filosofia e o fazer filosófico aumentou consideravelmente.
Acredito que a ANPOF possui um papel estratégico na manutenção de um diálogo orgânico e contínuo com os professores e professoras mestres atuantes na educação básica. Essa contribuição pode ser ampliada por meio do apoio ao reconhecimento da cidadania filosófica do Ensino de Filosofia (Rodrigues, Velasco, Gelamo, 2024) como área de pesquisa institucional, no contexto de nossa comunidade filosófica e das agências de fomento, aspecto que endossaria, por sua vez, a valorização da formação docente e da Licenciatura no interior dos departamentos de Filosofia nas universidades brasileiras
Referências
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BARRA, Eduardo S. de O.; BARREIRA, Marcelo M. A Intervenção como prática constitutiva do PROF-FILO. Kalágatos , [S. l.], v. 18, n. 2, p. 140–156, 2021. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/kalagatos/article/view/7194
CERLETTI, Alejandro. O ensino de filosofia como problema filosófico. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
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RODRIGUES, Augusto; DEL NERO VELASCO, Patrícia; PELLOSO GELAMO, Rodrigo. Apresentação do Dossiê: As pesquisas sobre o Ensino de Filosofia no Brasil: perspectivas epistemológicas sobre o campo. Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 38, p. 1–8, 2024. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/74958.
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VELASCO, Patrícia. Ensino de Filosofia como campo de conhecimento. REVISTA ESTUDOS DE FILOSOFIA E ENSINO, v. 1, n. 1, 2019
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